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Biólogos afirmam que vermes aquáticos em Camburi podem indicar poluição

A grande quantidade vista na areia da praia pode estar relacionada com esgoto despejado no mar ou até com a obra de engordamento da faixa de areia

Publicado em 25/06/2020 às 22h23
Atualizado em 26/06/2020 às 17h59
Foto da parte anterior da espécie de Poliqueta encontrada na Praia de Camburi
Foto da parte anterior da espécie de Poliqueta encontrada na Praia de Camburi. Crédito: Daniel Motta

Os vermes aquáticos vistos na Praia de Camburi nessa quarta-feira (24) causaram estranheza em quem passou pelo local. Apesar do secretário de Meio Ambiente de Vitória, Ademir Filho, afirmar que eram Poliquetas, anelídeos marinhos que vivem na areia, e que se tratava de um fenômeno natural, outros fatores podem estar por trás da presença dos bichos na areia.

Para Karla Gonçalves da Costa, bióloga com doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a presença das Poliquetas é bastante comum em qualquer tipo de ambiente marinho, sejam eles mais fundos, rasos, frios ou quentes, no entanto, a grande quantidade que apareceu em Camburi é preocupante.

Para a professora, a presença dos bichos em tamanha quantidade é uma resposta para algo que está acontecendo na região. Segundo Karla, o despejo de poluentes pode ser uma justificativa para a presença das Poliquetas na quantidade que foi vista na praia, já que algumas espécies podem se alimentar da matéria orgânica.

"Alguma coisa aconteceu para ter aumentado a quantidade. Podem ter chegado larvas, já que as Poliquetas possuem uma fase larval no seu desenvolvimento, e se adaptado muito bem ao local. Tem que saber que espécie que é para entender do que eles se alimentam, já que as Poliquetas têm uma diversidade muito grande de hábito alimentar, desde predadores carnívoros até os que comem detritos, matérias orgânicas. Geralmente, quando há muitos assim, se alimentam de matéria orgânica. Sabendo a espécie, podemos tentar interpretar a situação", disse.

Ainda de acordo com Karla Gonçalves, a presença das Poliquetas pode estar relacionada com poluentes despejados na água, como esgoto. Ela explica que, por se alimentarem de matéria orgânica, quanto mais esgoto é despejado, mais espécies são atraídas para o local.

"Tem Poliquetas filtradores que comem as pequenas partículas que ficam na água. Se tiver uma fonte de esgoto, geralmente aparece um monte de espécies oportunistas e há uma abundância sim, porque favorece as que gostam de se alimentar dessas partículas", informou. "Quanto mais abrigada é a praia, mais favorece a presença das Poliquetas. Elas gostam de ambientes mais parados, com água mais calma. Isso não quer dizer que não existam em praias mais agitadas, a abundância é que muda."

Karla Gonçalves da Costa

Bióloga com doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

"Eu nunca tinha visto isso no Estado, nunca soube de um caso assim aqui. Isso não é uma situação normal porque, se fosse, existiriam outros registros"

DESCONTROLE AMBIENTAL

O biólogo marinho Daniel Motta, que trabalha na Ethica Ambiental, empresa especializada em análises e estudos laboratoriais ambientais, recolheu uma amostra da areia da Praia de Camburi onde as Poliquetas estavam. Para Daniel, esse "bloom", como é chamado quando há uma quantidade volumosa de uma espécie na região, indica um desequilíbrio ambiental.

"Como está em Maré de Sigízia, a maré sobe muito e também recua muito. Nesse recuo, esses bichos ficaram evidentes, mas, nessa quantidade volumosa, que chamamos de 'bloom', é algo que nunca vi na vida. Todo 'bloom' é algo que está em descontrole no meio ambiente. Se há um 'bloom' dese animal, então há um desequilíbrio."

Daniel informou também que as Poliquetas são animais cosmopolitas, ou seja, que vivem em qualquer lugar do mundo. Além disso, são importantes indicadores ambientais e podem oferecer informações sobre a qualidade da água. A relação da presença das Poliquetas com o engordamento da praia ou com presença de poluentes, porém, varia conforme a espécie, segundo Daniel.

"Ainda devo analisar o animal pra saber qual é e, pela ecologia dele, saber se o ambiente está poluído ou não. Pode ser pelo engordamento da praia, podem ser vários fatores. Ainda não há dados conclusivos, não posso dar certeza", informou.

Praia de Camburi cheia de poliquetas na manhã desta quarta-feira (24)
Praia de Camburi cheia de poliquetas na manhã desta quarta-feira (24). Crédito: Internauta

Para Daniel, porém, o fato de a areia coletada para a obra de engordamento ter sido de um local poluído pode ter favorecido o surgimento das Poliquetas. Segundo ele, uma sedimentação mais fina é um ambiente melhor para os bichos.

"Eles coletaram areia na boca do valão, basicamente, da Baía de Vitória, pegaram a lama e colocaram na areia da praia. Essa diferença na sedimentação pode ter levado as Poliquetas, porque são partículas mais finas de sedimento, que são mais favoráveis para elas. Naquele local da Praia de Camburi, o sedimento está fino e lamoso, então essa espécie de Poliqueta prefere esse tipo de sedimento", afirmou.

REQUERIMENTO AO IBAMA

Para conseguir respostas sobre a presença das Poliquetas na areia de Camburi, o representante do Movimento Praia do Canto, Armando Fontoura, enviou um requerimento para o Ibama. Segundo ele, deve ser feita uma apuração mais detalhada e técnica a respeito da infestação dos vermes na praia.

"Achamos que as explicações da prefeitura foram contraditórias e que não foram eficazes. Queremos que o Ibama apure com base científica, porque nós usamos a praia. Queremos uma apuração rigorosa. Quando você vê peixes mortos, existe uma causa. A mesma coisa com os vermes aquáticos. Aconteceu algo, tem um desequilíbrio e causa estranheza. Não me parece ser apenas um fenômeno natural", afirmou.

Para Armando, um dos fatores que pode ter relação com a presença das Poliquetas é a obra de engordamento da faixa de areia da praia de Camburi, que, inclusive, foi alvo de investigações do Ministério Público Federal do Espírito Santo. De acordo com o órgão, sérios danos ambientais foram registrados durante a obra.

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