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Polêmica ressurge e especialistas discutem barreiras à arte erótica no ES

Artista de Aracruz, no Espírito Santo, foi criticado por performance sensual na web, mas especialistas criticam incompreensão e recusa a acesso à arte para justificar os que questionam a validade da manifestação erótica

Vitória
Publicado em 14/05/2021 às 02h00
Censura, mulher censurada, censurado
 . Crédito: Freepik

Selecionada por um edital do Banco da Amazônia, a exposição "Suaves Brutalidades", de Henrique Montagne Figueira, foi cancelada quando estava prestes a ser montada na última quinta-feira (6). O motivo? A mostra contém uma série de obras com temática LGBT e nudez. 

Mostra Suaves Brutalidades: sem título, da série 'Caderno de Ressacas'
Mostra Suaves Brutalidades: sem título, da série 'Caderno de Ressacas'. Crédito: Divulgação

De fato, as manifestações dessa vertente sempre geraram questionamento, como quando uma série de obras foi censurada ao longo de 2018, inclusive, entre artistas capixabas. Só que essa recusa pode ser reflexo de incompreensão e falta de acesso à informação – ainda que em 2021 –, como apontam especialistas e artistas ouvidos por A Gazeta.

Rodolpho, na ocasião, expunha na Casa da Memória, em Vila Velha, quando um de seus quadros foi considerado impróprio para o público. “Para evitar conflitos, foi melhor cobrir (a obra). Muita gente ainda não está preparada para algumas situações e eu também não quero meu trabalho vinculado a problemas. Só estou aqui para retratar a beleza do desenho e da pintura”, fala.

O artista plástico Rodolpho Valdetaro
O artista plástico Rodolpho Valdetaro. Crédito: Arquivo pessoal

Na ocasião, o artista plástico relata que ficou surpreso: “Eu fiquei surpreso, assim como muita gente. Agora faz parte do meu histórico e eu não posso mudar isso. Vai servir de ensinamento não só para mim, mas para as gerações futuras de artistas. De alguma forma foi um jeito de esclarecer aos desavisados e influenciar os inconformados”.

Obra de Nossa Senhora, do artista plástico Rodolpho Valdetaro, que foi censurada na Casa da Memória, em Vila Velha, em 2018
Obra de Nossa Senhora, do artista plástico Rodolpho Valdetaro, que foi censurada na Casa da Memória, em Vila Velha, em 2018. Crédito: Arquivo pessoal

Mas para Maria Amélia Dalvi, professora doutora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a avaliação do caso tem uma conclusão diferente, assim como sua opinião sobre os que criticam esse tipo de manifestação artística. “Olha, quem quer bom-mocismo deve procurar outras esferas que não a arte. A arte precisa abordar o que é próprio do humano e da realidade. E o erótico é próprio do humano e constitui nossa realidade. Que algumas pessoas não queiram saber do real, do mundo, de si, não é motivo para impedir que outras tantas queiram e o façam”, fala.

Ela estudou o tema a fundo entre 2003 e 2005. Na ocasião, fez uma pesquisa de iniciação científica sobre o livro de poemas eróticos "O Amor Natural", de Carlos Drummond de Andrade. Em 2008 foi aprovada com a tese e sem reservas.

“Toda arte que aborda o próprio do humano é polêmica. E porque nossa sociedade é profundamente hipócrita. Uma arte que verdadeiramente aborde as grandes questões do ser humano incomodará. Nem toda arte chamada de erótica faz isso, mas, em geral, as pessoas são lenientes com manifestações que fetichizam os corpos e as pessoas, vide a complacência social com os sites de pornografia, por exemplo, e se incomodam com as produções artísticas que efetivamente trazem à baila questões existenciais e sociais instigantes”, complementa.

A professora doutora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Maria Amélia Dalvi
A professora doutora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Maria Amélia Dalvi. Crédito: Arquivo pessoal

A escritora capixaba Bernadette Lyra, um dos maiores ícones femininos da Literatura, também já sofreu com o que Maria Amélia resume a desinformação (em outras palavras). Em 1991, seu livro "Aqui Começa a Dança", da Editora Marco Zero, do Rio de Janeiro, foi censurado. Publicado em 1985, o romance narrava a vida de três personagens femininas.

"Os editores consideraram 'uma história corajosa, irônica, inesperada, repleta de humor e de situações tão bem construídas que os leitores vão se surpreender com a modernidade do texto'. Mas umas senhoras que exerciam a função de censoras junto ao Ministério da Educação da época taxaram o livrinho como ‘pornográfico’. Até hoje, não sei o que causou a ira das ilustres madames. Mas resultou em muita matéria na mídia, muita fofoca de ‘comadres’ entendidas em literatura e no esgotamento de toda a edição”, relembra.

Sobre a sensação, Bernadette responde, com bom humor: “Eu adorei ser entronizada entre escritoras ‘mal-ditas’, que iam de Adelaide Carraro a Hilda Hilst. E continuo a nunca renunciar ao que desejo escrever e persistir em escrever como sempre”.

A escritora Bernadette Lyra
A escritora Bernadette Lyra. Crédito: Gelson Santana

Questionada quanto a uma solução para esse problema, defende: “Educação para a democracia, para a liberdade e para o respeito às escolhas de cada indivíduo”. O que Maria Amélia e Rodolpho também acreditam que sejam as saídas mais conscientes.

“A forma mais fácil da gente conduzir isso é por meio da educação. Quando existe o diálogo, as mentes se abrem e o entendimento fica mais claro. Fica incoerente uma pessoa acreditar em Adão e Eva, que andavam nus pelo paraíso, e se sentir ofendido com uma imagem de uma mãe amamentando seu filho, sendo que isso faz parte da natureza humana”, critica Rodolpho.

E Maria Amélia finaliza: "Primeiro, educação e arte. Mas, para isso, é preciso revolucionar o sistema, pois, no atual, é impossível que todos tenham acesso à educação e arte igualitariamente. A lógica do sistema reside na desigualdade, na semiformação humana. Veja que pessoas realmente bem-formadas, esclarecidas, raramente se incomodam com a arte erótica. Conhecem sua história na longa duração e sabem que essas ‘polêmicas’ são induzidas a serviço de interesses escusos e são disseminadas por pessoas com uma formação insuficiente para uma análise criteriosa, em geral".

O QUE É ARTE ERÓTICA?

Quando foi surpreendido com a obra barrada, o artista Caio Cruz esclareceu à reportagem que definição tinha, por teoria, a arte erótica. Ele explicou que arte erótica seria "qualquer foto, pintura ou obras literárias que envolvam teor sexual explícito". "Entretanto, essa obra tem que ter um conceito artístico por trás", completou.

O artista Caio Cruz e o marido, Fab's Costa, coordenam A Oca, espaço cultural do Centro de Vitória
O artista Caio Cruz e o marido, Fab's Costa, coordenam A Oca, espaço cultural do Centro de Vitória. Crédito: Vitor Jubini

De acordo com ele, algumas exposições de arte erótica têm até classificação indicativa para que o espectador tome ciência do conteúdo que ela possa vir a exibir. Ele, na exposição que montou só com a arte erótica, depois de ter a obra censurada, inclusive optou por essa modalidade.

À época, colocou a faixa etária de 16 anos como idade mínima para os visitantes. Pessoas com idade abaixo da citada só puderam entrar acompanhados dos pais ou responsáveis, como ele contou na ocasião à Gazeta.

Já Bernadette analisa: “A meu ver, a expressão ‘arte erótica’ é uma tautologia (redundância), pois toda arte é erótica, no sentido que o fazer artístico é um ato de amor que resulta do desejo do artista em ligar-se profundamente a um ‘outro’, que é sua obra, seja ela de que espécie for: literária, pictórica, teatral ou qualquer outro modo expressivo. O contato de alguém com uma obra artística também é erótico, pois exige uma reação sensual, seja ela de afeto ou de indiferença. Por outro lado, o termo ‘arte erótica’ comumente é usada para representações que despertam, de alguma forma, sentimentos ligados à sexualidade”.

E Rodolpho complementa, finalizando: “Desde que o mundo é mundo, a arte erótica constitui nosso meio social, trata-se de uma expressão sentimental que define por meio criativo, uma sensação que o homem, como animal racional, tenta explicar os desejos e vontades por meio artístico. Quando bem retratada, bem explicada e bem aplicada, é sutil aos olhos de quem vê”.

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