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Grupos de teatro do ES tentam se manter em meio à pandemia da Covid-19

Sem recursos, companhias fazem vaquinhas virtuais e esperam os recursos da Lei Aldir Blanc, aprovada no Congresso, para não fecharem as portas de vez

Publicado em 31/05/2020 às 14h00
Atualizado em 31/05/2020 às 14h00
Espetáculo
Espetáculo "Revoada", do Grupo Z em parceria com a Companhia Repertório Artes Cênicas&Cia. Crédito: Brunela Negreiros

O teatro capixaba pede socorro. Por conta do avanço da pandemia do novo coronavírus, companhias e grupos teatrais estão precisando fazer das tripas coração para se manterem vivos. Impossibilitadas de continuar com as turnês (por conta do isolamento social imposto pela Covid-19), algumas companhias, se não conseguirem recursos financeiros, podem até perder seus espaços próprios.

O Grupo Z, por exemplo, afirma não ter mais condições de manter sua sede, batizada carinhosamente de Má Companhia, localizada na Cidade Alta,  Centro de Vitória. "Negociamos o aluguel com a dona do imóvel, mas ela, mesmo com muita boa vontade e carinho pelas artes, precisa do dinheiro. Temos uma reserva financeira, acumulada com montagens de outros anos. Esse dinheiro só nos mantém até junho", garante Fernando Marques, um dos diretores da trupe.

A casa funciona como espaço cultural há cerca dez anos. Há sete deles, a Má Companhia foi criada em uma parceria do Grupo Z com a Repertório Artes Cênicas e Cia.

Grupo Z em ação na montagem
Grupo Z em ação na montagem "Cinzas de um Carnaval": cancelamento por conta do coronavírus. Crédito: Instagram/Reprodução

"Estávamos programando a retomada de dois espetáculos, o “Cinzas de um Carnaval” e "Revoada", em março. Hoje, nossas atividades estão completamente paradas. Estamos fazendo uma série de estudos para criar algumas opções de apresentações online, mas ainda não encontramos um formato satisfatório para manter o padrão de qualidade de nossas montagens", acredita Fernando, apontando que somente fazer uma campanha de doações pela internet não será capaz de manter as atividades do Má Companhia. 

"Estamos na iminência de fechar a casa há alguns anos, especialmente por conta do encolhimento das politicas públicas voltadas para a cultura. Um financiamento coletivo pode ajudar a pagar o aluguel por uns meses, mas a manutenção de um centro cultural não se resume a isso. Precisamos manter o nosso acervo e também os cachês dos profissionais. Nossa história sempre foi de priorizar as pessoas. Se precisar, vamos recomeçar do zero", desabafa Marques.

Fernando afirma que espera sair o resultado dos editais da Secretaria Estadual de Cultura, como o Programação Continuada de Espaços Culturais, lançado no final de 2019, para conseguir recursos para a manutenção do grupo e novos projetos. 

CRISE SEM FIM

Ao contrário do Grupo Z, o Folgazões optou por fazer uma campanha de doação solidária nas redes sociais para ajudar na manutenção de sua sede, também localizada no centro da capital.

"Estamos sem aprovação de editais culturais desde outubro. Tentamos manter a nossa estrutura com um dinheiro reservado, que veio com a locação da sede para atividades educacionais e culturais. Conseguimos arrecadar R$ 3 mil em doações pelas redes. O dinheiro vai para pagar as contas básicas até julho. Facilita muito porque não precisamos pagar aluguel, pois a nossa sede é própria", adianta Foca Magalhães, um dos diretores do grupo. 

O artista garante que a pandemia da Covid-19 fez com que o grupo repensasse a própria estrutura. "Continuaríamos com a turnê de "Buffalo's Show", mas os planos tiveram que ser alterados. Por agora, nos dedicamos às aulas online das duas turmas em atividade do curso de teatro da escola de atores Cena. Os alunos estão sendo adaptados para a realidade da classe artística pós-pandemia", detalha Magalhães, dizendo que o futuro dos tablados está na internet.   

Cena da peça
Cena da peça "Buffalo's Show", uma das últimas montagens do Folgazões antes da pandemia. Crédito: Fábio Martins

"Alguns espaços que reabriram na Europa estão retirando cadeiras para manter o isolamento social. Outros, optaram por apresentações no estilo Drive-in, em estacionamentos. É uma saída, mas acredito que haverá uma junção (ainda maior) com o audiovisual. Teatro de performance em videoconferências será a nova realidade", divaga.

Foca diz que o apoio das instâncias governamentais é fundamental para vencer a crise. "Sofremos com a falta de politicas públicas e a demonização da classe artística. A Covid-19 foi apenas a 'cereja do bolo'. Por agora, estamos na expectativa da aprovação da Lei Aldir Blanc, que pode dar um suporte necessário à classe artística nesse momento de sufoco", desabafa. 

AJUDA GOVERNAMENTAL

A Lei Aldir Blanc, nome dado à Lei de Emergência Cultural (1075/2020) é o resultado do relatório da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que define uma série de ações emergenciais a serem adotadas pelo Governo Federal durante o estado de calamidade pública causado pela pandemia do novo coronavírus.

As medidas visam diminuir os impactos econômicos causados pelas restrições às atividades profissionais de trabalhadores e entidades culturais.  Atualmente tramitando no Senado Federal, para posterior decreto de Jair Bolsonaro, a lei  promete investir R$ 3,6 bilhões na cultura. 

A verba será repassada igualmente entre estados (50%) e municípios (50%) de todo o país. Para a definição do valor de cada ente, 20% será pelo critério de rateio do Fundo de Participação dos Estados ou dos Municípios e 80% de acordo com a população. O dinheiro virá do superávit (valores não utilizados) do Fundo Nacional de Cultura, apurado em 31 de dezembro de 2019.

Ainda não há um montante específico destinado ao Espírito Santo. Por aqui, a Secretaria Estadual de Cultura (Secult) será uma das responsáveis pela divisão dos recursos entre a classe artística. Procurada por A Gazeta, para saber se a entidade conta com um plano para a partilha da verba, a Secult respondeu, por meio de nota.

"A Secretaria da Cultura (Secult) teve participação ativa na mobilização pela aprovação da Lei de Emergência Cultural, além de ter levado as demandas capixabas para a discussão com os parlamentares na elaboração da Lei. A Secult está estruturada para receber o recurso e distribuir de acordo com o previsto no projeto, em auxílios aos fazedores de cultura e espaços culturais, além de políticas de fomento.

Na próxima semana, a Secult tem conversas previstas com gestores municipais, em parceria com a Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes), sobre a Lei Aldir Blanc. Em conjunto com prefeituras, foi criado um Grupo de Trabalho técnico para dar suporte e assessoria para os municípios que precisam se adequar para receber o recurso federal. O grupo será formado por secretários e técnicos das prefeituras e da Secult".

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