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Centro Cultural Carmélia: artistas cobram providências do governo

Classe artística lamenta e promete lutar contra a decisão da União de transformar o espaço num local para armazenamento de café

Publicado em 31/07/2020 às 18h33
Atualizado em 04/08/2020 às 11h35
Centro Cultural Carmélia Maria de Souza vai abrigar os armazéns da Conab no lugar dos galpões do IBC
O Centro Cultural Carmélia, em Vitória, será transformado em local para armazenamento de sacas de café, laboratório e escritórios da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). . Crédito: Vitor Jubini

A notícia do fechamento do Centro Cultural Carmélia Maria de Souza, em Vitória, pegou a classe artística capixaba de surpresa. Gerenciado pela Prefeitura de Vitória, o aparelho será transformado em local para armazenamento de sacas de café, laboratório e escritórios da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O imóvel vai receber o material que atualmente está abrigado nos Galpões do IBC, em Jardim da Penha, que teve a sua venda anunciada pela União.

Muitos artistas lamentam o encerramento das atividades do Carmélia. Afinal, independente das atividades estarem paralisadas por conta da pandemia do novo coronavírus, a quantidade de espaços públicos capazes de receber grandes espetáculos teatrais e apresentações musicais é cada vez menor na Grande Vitória. 

Tirando o Teatro da Ufes (comandado pelo governo federal), atualmente contamos com o Palácio da Cultura Sônia Cabral (sob tutela do governo estadual) e o Centro Cultural Frei Civitella di Trento (sob direção da Prefeitura de Cariacica) como espaços aptos a receberem espetáculos. Em contrapartida, temos o Teatro Carlos Gomes (também do governo estadual), em um processo de reforma que já dura anos.

O Teatro Municipal de Vila Velha, outro ponto importante, também não está apto a receber eventos por conta de melhorias nas instalações. Podemos citar ainda o Cais das Artes, um projeto que segue com obra parada e sem previsão para inauguração. A perda definitiva do Carmélia é vista pela classe artística como mais um desfalque no cenário cultural, que segue carente de espaços.

"Estamos todos muito tristes e desapontados com a insistência em não se cuidar da cultura neste pais. Muita falta de sensibilidade e respeito aos artistas, não bastasse a pandemia que colocou a classe artística e cultural em grave crise. O Teatro Carlos Gomes fechado e em eterna expectativa de restauração, desde 2017. Temos também fechado o Teatro Sesc Glória desde maio deste ano. Como se não bastasse tanta carência de palcos para a arte teatral e a música, somos agora surpreendidos pela notícia que o Centro Cultural Carmélia foi requerido pela União, com decisão tomada desde maio deste ano, e só agora tomamos conhecimento", diz o produtor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha, Manoel Góes, resumindo o sentimento da classe artística.

Produtores e artistas tinham a esperança do Carmélia - que já não recebia espetáculos há sete anos - ser reformado ou transformado na Cidade do Samba, revitalizando a região em que o centro cultural se encontra. Com a notícia, a classe cultural se reuniu nesta sexta-feira (31) para debater ações no intuito de tentar barrar o fechamento do complexo como campanhas nas redes sociais, podendo até abrir uma ação cível contra a União e a realização de uma manifestação em frente ao prédio, no bairro Mário Cypreste, programada inicialmente para a próxima terça (4).

"Nós vamos fazer alguma coisa para colocar na cabeça destas pessoas que eles não podem fazer isso com a cultura do Espírito Santo", disse o presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado no Espírito Santo (Satedes), Pietro Marcos Barbosa Suanno, que não participou da reunião citada.

TRISTEZA E DESVALORIZAÇÃO

Em conversa com o "Divirta-se", a artista multimídia e produtora cultural Stael Magesck vê o fechamento do Carmélia como um exemplo de descaso e desvalorização com a cultura e os trabalhadores da arte. 

"Também sinto um total desprezo para com a cidade de Vitória, principalmente sua região central. Há tempos reivindicamos que a área próxima ao Carmélia seja equipada. Queremos levar arte, cultura e educação a uma comunidade que realmente precisa desse tipo de iniciativa. É um local de vulnerabilidade social e que precisa de segurança. Atividades como a nossa, levam vida a essas áreas", desabafa, dizendo que a comunidade precisa ser ouvida pelo poder público.

Em suas redes sociais, a artista ainda resgatou o caso do extinto Teatro Edith Bulhões, na Avenida Beira-Mar, em Vitória. Como o Carmélia, o terreno também pertencia à União e acabou sendo demolido em 2010, dando lugar à construção da nova sede da Receita Federal. 

Quem também comparou  a situação à história do extinto teatro na Avenida Beira-Mar foi o diretor,  produtor, dramaturgo e ator José Celso Cavaliéri.  "Já fazem 10 anos e o teatro continua desvalorizado. Nada foi feito para substituir (o Teatro Edith Bulhões). Pelo contrário, estamos perdendo: Teatro Galpão se foi; Teatro Carlos Gomes num processo de reforma que não acontece; Teatro Sesc Glória sem sabermos o que irá acontecer... Agora o Centro Cultural Carmélia, virar depósito para café? Um absurdo!", publicou.

Em seu protesto, ele ainda pediu ajuda aos parlamentares capixabas: "Atenção, senhores deputados e senadores, acudam nosso pedido de socorro, não deixem tirar mais um espaço Cultural".

Celso Adolfo, presidente do Sindicato dos Artistas Plásticos Profissionais do Espírito Santo, lembrou que o espaço também recebia exposições e lamentou a morte de um aparelho cultural tão importante. "Assistimos à morte lenta de nossos aparelhos culturais. Cabem aos artistas a mobilização para cobrar novos espaços e vamos fazer isso. Esperamos, por exemplo, que as obras do Cais das Artes saiam definitivamente do papel. Não adianta fazer editais culturais se nós não temos espaços de apresentação", cobra.

"Eles ainda não entenderam que o que dã vida ou alma à cidade são a arte e a cultura. O que seria de Nova York sem a Broadway, seus museus e salas de concertos. E Paris, sem seus museus, sua história e os artistas que lá viveram. Atenas sem seus monumentos históricos, Londres sem Shakespeare e sua história preservada, apesar das guerras. Vitória tem belezas naturais e só. Tudo muito mal aproveitado. Triste", comentou o jornalista, ator e produtor Luiz Tadeu Teixeira,

DESMONTE CULTURAL

O Carmélia, cuja área pertence à Conab e, no passado, abrigou o Instituto Brasileiro do Café (IBC), estava cedido à Prefeitura de Vitória e ao governo estadual. No local, atualmente funciona a TV Educativa (TVE), pertencente ao Estado. A emissora também terá que deixar as instalações. 

Há pelo menos dois anos, a PMV tentava transformar o centro cultural em um espaço destinado ao carnaval, com a criação da Cidade do SambaEm entrevista a A Gazeta, nesta sexta (31)Leonardo Krohlling, coordenador do Comitê de Acompanhamento e de Recuperação Econômica para Situação de Emergência de Saúde Pública - Covid-19, de Vitória, informou que o município possuía uma cessão provisória do imóvel e que, para desenvolver uma ação, precisaria de uma cessão de longo prazo.

Em 2019, a prefeitura recebeu a informação de que o projeto, em parceria com a Liesge, não seria aceito. Já no início deste ano, foi surpreendida com a notificação para que deixasse o local. 

Na mesma matéria, Edvaldo Teixeira da Silveira, presidente da Liesge, afirmou que a decisão da União de transformar o Carmélia em centro de armazenagem mostra o desrespeito com a cultura capixaba. “É uma demonstração de que a União não gosta ou respeita a cultura”, desabafa. O espaço, segundo Edvaldo, seria usado pelas escolas na confecção de fantasias e realização de oficinas de capacitação profissional. 

Em conversa com o "Divirta-se", o secretário de cultura de Vitória, Francisco Grijó, lamentou a perda do Centro Cultural Carmélia e a não efetivação da Cidade do Samba no local. "Pelo projeto, o centro também contaria com um teatro, que seria coordenado pela Secretaria Municipal de Cultura. Cheguei a participar de uma reunião na Secretaria do Patrimônio da União (STU). Eles tinham a ideia para a implementação de oficinas de start-ups no Carmélia, mas não foi à frente", afirma.

A secretária de Estado de Gestão e Recursos Humanos, Lenise Loureiro, informou que recebeu a notificação da Secretaria de Patrimônio da União (SPU-ES) para deixarem o local e que o prazo venceu em junho, mas que foi pedida uma prorrogação. Ela relata que já foi lançado um edital de chamamento público para a escolha de um imóvel para abrigar a TV Educativa.

Em relação ao Centro Cultural Carmélia, ela explica que ele não vinha sendo utilizado como teatro há alguns anos. “Chegamos a apresentar uma proposta de reformar a estrutura, em especial fazer funcionar o teatro também para a rádio e a TV, com espaço para transmissões ao vivo, com plateia. Mas os planos da União são no sentido de venda, e a gestão de patrimônio está se desfazendo de alguns bens”, relata Lenise.

Em nota, a Secretaria de Estado da Cultura (Secult) informou a situação dos aparelhos públicos sob sua jurisdição. " O Carlos Gomes está nas primeiras etapas de sua reforma, na fase do projeto. A previsão é que esta etapa termine em fevereiro de 2021. A partir daí, será feita uma licitação e a obra terá início. Sobre o Sônia Cabral, vale destacar que o processo de ocupação do espaço é aberto e democrático, feito por seleção pública tanto para o palco quanto para seu espaço expositivo e suas salas, que podem ser ocupadas com oficinas e cursos"

HISTÓRIA

Inaugurado em 1986, o Centro Cultural Carmélia Maria de Souza já sediou grandes espetáculos e festivais de teatro, recebendo artistas locais e de renome nacional. O espaço também contava com uma biblioteca e um cinema de arte.

Centro Cultural Carmélia Maria de Souza vai abrigar os armazéns da Conab no lugar dos galpões do IBC
Centro Cultural Carmélia Maria de Souza. Crédito: Vitor Jubini

O Cine Carmélia ainda é visto com nostalgia e saudosismo pelos cinéfilos. A sala abrigou exibições do Festival de Cinema de Vitória, o antigo Vitória Cine Vídeo, nos anos 1990. 

Em suas telas, o público capixaba pôde ver, com exclusividade, filmes premiados pelo Oscar, como o francês "Indochina" (1993), de Régis Wargnier, e "Nada é Para Sempre" (1992), de Robert Redford. O espaço também foi exibidor oficial dos acervo do Circuito Belas Artes e de clássicos restaurados, como "Blade Runner" (1982), de Ridley Scott, e "Laranja Mecânica" (1972), de Stanley Kubrick.

Em 2011, o centro cultural chegou a ser reformado e reinaugurado pela PMV. À época, abrigou a sede da Lei Rubem Braga de Incentivo à Cultura, com espaço para biblioteca com o acervo de livros, CDs, DVDs e outros produtos culturais frutos de projetos contemplados pela iniciativa. No local, funcionou ainda um telecentro voltado a pesquisas acadêmicas. O Teatro José Carlos de Oliveira foi fechado em 2013, e as salas de múltiplo uso estão sem utilidade desde 2012.

Em matéria publicada em 2018, A Gazeta constatou o estado de abandono do empreendimento cultural. A reportagem chegou a flagrar um abrigo de moradores em situação de rua, vários vasilhames de isopor e garrafas de plástico acumulando água e sujeira, além de muito mato.

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