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Sem obras no Carmélia, prefeitura estuda devolver imóvel abandonado

Obras eram para começar no 1º semestre deste ano, mas insegurança só cresce com usuários de droga se apropriando do espaço cultural até para fazer sexo

Publicado em 27/04/2018 às 15h32
Centro Cultural Carmélia Maria de Souza. Crédito: Pedro Permuy
Centro Cultural Carmélia Maria de Souza. Crédito: Pedro Permuy

A previsão da Prefeitura de Vitória (PMV) era de que até o fim do primeiro semestre deste ano, as obras de reforma e revitalização começassem no Centro Cultural Carmélia Maria de Souza, na região de Santo Antônio, na Capital. No entanto, o local continua entregue ao abandono, com lixo acumulado, vários pontos de água propícios para a proliferação de mosquitos e, se não bastasse, a violência, que faz com que os moradores fiquem dentro de casa a maior parte do tempo. Sem muita iluminação, a região é ponto viciado de assaltos e o próprio espaço cercado do Carmélia já é invadido por moradores em situação de rua e usuários de droga. Agora, o órgão já estuda até devolver o imóvel à União.

Desde que foi inaugurado em 1986, o Centro Cultural Carmélia já sediou grandes espetáculos, festivais de teatro, e já recebeu artistas locais e conhecidos nacionalmente. A área pertence à União, mas teve sua administração cedida à Prefeitura de Vitória em 2010.

Em 2011, ele chegou a ser reformado e inaugurado pela PMV. À época, abrigou a sede da Lei Rubem Braga de incentivo à cultura, com espaço para biblioteca com o acervo de livros, CDs, DVDs e outros produtos culturais frutos de projetos contemplados. No local funcionou ainda um telecentro voltado a pesquisas escolares e/ou acadêmicas para uso da comunidade.

O Teatro José Carlos de Oliveira, que fica no local e comporta 400 pessoas, está fechado desde 2013 e as salas de múltiplo uso, como são chamadas, estão sem utilidade desde 2012. Tudo isso, em menos de um ano de uso, com a promessa de receber a continuação do Projeto Palco Aberto - lançado em 2006 pela PMV.

Os únicos serviços de manutenção que o órgão realizou no Carmélia nos últimos anos foram pinturas, reparos nas redes elétrica e hidráulica e limpeza da área externa - o que parece não acontecer mais, como visto pela reportagem na última visita feita. No local, a equipe do Gazeta Online chegou a flagrar um abrigo de moradores em situação de rua feito com alguns panos amarrados na grade de uma janela situada na parte de trás do Carmélia. Por lá, vários vasilhames de isopor e garrafas de plástico acumulando água e sujeira.

Dentro do espaço cultural, onde resiste a sede da TV Educativa do Espírito Santo (TVE), parte da administração que ainda cabe ao Governo do Estado, a situação é melhor - a limpeza é realizada e há vigilantes.

O vídeo abaixo mostra a situação do local, com uma trilha de entulhos, e até uma árvore caída, que carregou na queda parte da fiação no perímetro cercado do Carmélia. Assista:

A falta de segurança e o abandono são relatados, inclusive, por um funcionário que prefere não se identificar. Segundo ele, a equipe que chega pela manhã no Carmélia já flagrou até moradores em situação de rua mantendo relações sexuais. "Muito usuário de droga tem entrado dentro do espaço. Aqui dentro eles montam até acampamento", detalha. Ele conta que os invasores vem e vão, mas que nos últimos tempos o cenário voltou a ficar caótico.

"Se não fosse a TVE aqui dentro, esse lugar já estaria despencando ou já teria acabado há muito tempo", dispara o funcionário. Para ele, também é lamentável o fato de os próprios moradores vizinhos ao Carmélia despejarem seus entulhos no terreno. "As próprias pessoas do entorno jogam lixo por cima do muro ou despejam em um canto", relata o funcionário, que lamenta, ainda, a falta de manutenção na estrutura física do espaço cultural. "Tem uma parte do muro que não tem mais muro. isso aconteceu com um portão também. As áreas ficam sem quaisquer proteções", desabafa.

INSEGURANÇA 

Maria da Penha Ribeiro. Crédito: Pedro Permuy
Maria da Penha Ribeiro. Crédito: Pedro Permuy

Moradora do entorno, a doméstica Maria da Penha Ribeiro, de 54 anos, diz evitar ficar até do lado de fora da sua casa senão tiver compromisso na rua. Apesar de nunca ter sido assaltada, ela conta que várias pessoas de sua família já foram abordadas por indivíduos que, segundo ela, usam a área do Carmélia para o uso de drogas. "Minha sobrinha, minha prima, outra prima minha... Todo mundo já perdeu alguma coisa para essas pessoas que frequentam o espaço para vender e usar drogas. O pior é que não tem horário. É de dia e é de noite. À noite só fica pior por conta da iluminação, que é pouca e ruim", diz.

Ela destaca que também tem reparado no aumento do número de mosquitos nessas temporadas de chuva e se preocupa com o risco de contrair uma doença. "A gente nunca sabe porque dengue, zika e chikungunya não têm cara. E tem dado muito mosquito", relata. 

"Às vezes, vejo um pessoal cortando a grama e algumas árvores, mas teve a árvore que caiu e ficou lá. A sujeira é uma coisa de outro mundo. Tem várias vasilhas espalhadas pelo chão e 'lagos' que se formam com a falta de escoamento da água. Acaba que só quem está em risco somos nós que moramos nas redondezas", lamenta Maria da Penha.

VIZINHOS EMITEM ALERTA DE PERIGO

Francisnaldo Rodrigues. Crédito: Pedro Permuy
Francisnaldo Rodrigues. Crédito: Pedro Permuy

Tem pouco tempo que o servente Francisnaldo Rodrigues, de 41 anos, foi morar próximo ao Carmélia. No entanto, passa em frente ao espaço todos os dias com a esposa. Uma das primeiras coisas que ele ouviu quando foi viver por lá foi o fato de a região estar abandonada e ser perigosa, sobretudo à noite. "Nós evitamos passar por aqui até por isso, mas temos que passar todos os dias para sair de casa", justifica.

Ele aponta que soube de histórias de pessoas que já foram assaltadas por usuários de drogas que ficam rondando a região. "Todo mundo avisou para nem pensar em passar com o celular na mão ou qualquer outro objeto de valor à vista, porque a qualquer hora do dia há riscos", exclama.

PREFEITURA QUER DEVOLVER IMÓVEL

Questionada sobre a situação do Carmélia, a Prefeitura Municipal de Vitória informa que estuda a devolução de sua parte no imóvel ao Patrimônio da União, dono do prédio. Sobre a sujeira no local, a prefeitura alega que enviou equipes na última semana para uma ação de limpeza completa na região, que inclui poda de árvores e retirada de acúmulo de água da chuva e lixo.

"Vale ressaltar que o local é monitorado e tratado semanalmente pela equipe de controle de mosquitos da dengue. Já em relação à segurança na região, informamos que as equipes da Guarda Municipal fazem patrulhamento preventivo com rondas periódicas em parceria com a Polícia Militar", reitera o órgão, por meio de nota.

A PMV conclui fazendo um apelo aos moradores, dizendo que se alguém flagrar algum delito ou pessoas com atitudes suspeitas, a Guarda de Vitória e a Polícia Militar podem ser acionadas pelo 190 ou pelo Fala Vitória, por meio do número 156.

QUEM FOI CARMÉLIA?

Carmélia Maria de Souza(1937-1974) foi a cronista por excelência do Estado. De língua ferina, é a autora da famosa frase “esta Ilha é uma delícia”, em que debochava do provincianismo da sociedade da época. Durante 17 anos de vida jornalística, trabalhou nos principais jornais da Capital, mas não conseguiu publicar seu livro. Quem o fez, após sua morte, foi o amigo e crítico de cinema Amylton de Almeida. A obra chama-se “Vento Sul”.

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