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Submetralhadoras são a ostentação do crime e uma afronta à sociedade

Somente nos seis primeiros meses deste ano, 133 armas foram apreendidas no ES. Muitas produzidas de forma semi-industrial,  e estar na trilha dessa produção ilegal exige um trabalho de inteligência policial permanente

Publicado em 23/07/2021 às 02h00
Vitória
Polícia Militar apreendeu submetralhadora, munições e drogas no bairro Alagoano, em Vitória. Crédito: Divulgação/PM

O aumento expressivo na apreensão de submetralhadoras pelos agentes policiais em 2021 no Espírito Santo, como registrado pelo colunista Leonel Ximenes na segunda-feira (19), aponta duas situações que não se anulam: de um lado, os inequívocos esforços e êxitos das forças policiais na abordagem a criminosos, resultando nessas apreensões; do outro, a sinalização de que a criminalidade está de fato de posse de um arsenal em franco crescimento, no compasso das apreensões também crescentes.

É como a Hidra de Lerna, figura mítica que, quando tinha uma cabeça cortada, outra (há quem diga que até duas!) surgia em seu lugar. As apreensões, de armas e de drogas, tendem a seguir lógica similar. Por mais que seja de suma importância a retirada de armamento ilegal de circulação, o ataque organizado e sistemático ao comércio ilegal e seus tentáculos é o que de fato pode ter impacto na perda de poder de fogo do tráfico.

Contudo, no caso específico das submetralhadoras, armamento que se tornou o preferido das facções como expressa a rotina das apreensões, a caçada é ainda mais complexa. O crescimento tem sido explosivo: em 2015, oito foram apreendidas. Nos anos seguintes, houve acréscimos pontuais: 12 em 2016; 14 em 2017 e 15 em 2018. É a partir de 2019 que há o disparo, com 33, para em 2020 esse número atingir as incríveis 133 apreensões, totalmente fora da curva. E 2021 segue no mesmo ritmo, com 104 submetralhadoras tiradas das mãos de bandidos somente nos seis primeiros meses do ano.

Não se trata de uma mera expansão do tráfico internacional de armas, embora esse armamento também chegue ao Espírito Santo por essas rotas ainda abertas no Brasil, vindas sobretudo da Rússia, Turquia e Israel. No caso da maior parte das submetralhadoras apreendidas, é o caráter amador da sua produção que desafia a segurança pública.

Secretaria Estadual da Segurança Pública (Sesp) alerta que o armamento pesado produzido de forma semi-industrial tem o mesmo poder de fogo que o que sai das fábricas oficialmente. Muitos dos armeiros artesanais já trabalharam como torneiro-mecânicos, não são meros aventureiros na manufatura de armas. Há expertise envolvida. Segundo a polícia, estão cada vez mais experientes e qualificados nessa produção.

Em 2020, um armeiro foi preso em Cariacica. Na Serra, também no ano passado, uma fábrica clandestina em Vista da Serra I foi desarticulada. Em Vila Velha, um suspeito de fabricar armas para uma quadrilha do município também foi preso. E a produção também se expande pelo interior, como mostra a prisão de um manufaturador de armas em Conceição da Barra, Norte do Estado, no último mês de maio. Estar na trilha dessa produção ilegal exige um trabalho de inteligência policial permanente.

É importante enxergar o simbolismo que o armamento pesado empreende na guerra entre facções e até mesmo nos confrontos com a polícia. O interesse dos bandidos nessas submetralhadoras está diretamente ligado à ostentação de poder, não somente à letalidade. Os arsenais são constantemente expostos em vídeos, que circulam livremente pela internet. Ações policiais para interromper essa produção e a comercialização são um trabalho que exige paciência, com resultados paulatinos. Mas é preciso fechar o cerco.

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