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Opinião da Gazeta

Cartas de jovens em meio à violência são estímulo a políticas públicas

Crianças e adolescentes de projeto social de Vila Velha narraram suas vivências em bairro onde há atuação do tráfico. Relatos comovem, mas devem também mobilizar ações para melhorar a vida desses jovens

Publicado em 18 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

18 jun 2021 às 02:00

Colunista

Relatos de jovem de Boa Vista II, em Vila Velha,  comovem pela honestidade Crédito: Reprodução/TV
O impacto da violência na vida de crianças que residem em bairros onde o tráfico de drogas faz parte da paisagem é ainda algo pouco tangível para a sociedade. Não há a dimensão real de como elas encaram os assassinatos, os códigos de conduta impostos por criminosos nas comunidades e até mesmo a percepção do racismo e da falta de oportunidades.
Não é comum, ou pelo menos não há repercussão fora do próprio convívio social, que meninos e meninas sejam estimulados a se expressar sobre a própria realidade, mas quando isso acontece fica evidente que nada escapa à percepção de quem, mesmo com pouca idade, já consegue compreender com nitidez as agruras do mundo que as cerca.
"Vejo muitos traficantes na rua, não tem como escapar. Vejo muitos pinos de cocaína espalhados pelo meu bairro. A praça é o meu lugar preferido de brincar, mas lá eu já vi o pai da minha amiga morto"
Trecho de uma das cartas - .
Com poucas palavras, uma criança de Boa Vista II, em Vila Velha, conseguiu ser muito contundente sobre o que testemunha no seu dia a dia no bairro. O relato é um trecho de uma carta, escrita como parte de um concurso promovido pelo projeto social Recriar ES, que acolhe cerca de 120 crianças e adolescentes. A iniciativa promove atividades educativas e lúdicas e fornece alimentação, em muitos casos a única ou a mais completa do dia, no intuito de contribuir para desviá-los do mundo do crime.
Uma tarefa árdua, em primeiro lugar pelas próprias dificuldades financeiras que o projeto enfrenta. Mas sobretudo diante dos desafios estruturais que estão ali, dentro do próprio bairro. Boa Vista II é um microcosmo de uma realidade que se repete em tantas outras comunidades. Das carências de infraestrutura urbana e serviços à precariedade da educação oferecida, sem o esperado potencial transformador para a vida desses jovens, fica difícil concorrer com o caminho da criminalidade. Mesmo que signifique uma vida mais breve ou o encarceramento, a sedução do crime ainda se destaca. 
Em uma das cartas, um adolescente relata como o crime se inseriu dentro de sua própria família: "Está tudo bem, mas quase teria que vir contar aqui que não está bem. Não vejo o meu pai tem tempo. Com a pandemia piorou. Papai está preso. Mamãe virou 'chefona' de casa, mas há muitos anos ela era do tráfico e usuária." 
Relatos tão duros e honestos são resultado da relação de confiança estabelecida entre esses jovens e a coordenadora do projeto, Melissa Alves. "Cada carta é uma emoção, uma história diferente, algo que alguém já viveu ou vive dentro de casa. Os meus 'humaninhos' me encantam, mas confesso que lendo, fiquei muito emocionada", disse ela à TV Gazeta. As redações foram um pedido despretensioso que se tornou uma fonte valiosa para externar os sentimentos e as angústias que cercam os participantes do projeto. Uma porta aberta para conhecer os seus anseios e suas experiências. 
E engana-se quem pensa que a aspereza já vivenciada por eles com tão pouca idade é capaz de tirar suas esperanças de uma vida melhor. Pelo contrário: os sonhos de cada um têm lugar de destaque em suas narrativas. "Já vi um homem ser morto na minha frente. Mas o meu sonho de ser guarda não é matar e, sim, para cuidar do meu próximo", diz um dos relatos.
O poder público, em todas as suas esferas, não pode ignorar esses desejos. Eles reforçam que, com perspectivas, a juventude não titubeia em escolher o caminho certo, do estudo e do trabalho. Mas as oportunidades precisam existir: escolas de qualidade, orientação profissional, atividades de lazer. Oportunidades que comecem a fazer a devida justiça social.
A honestidade dessas "correspondências", das quais toda a sociedade - e seus governantes - deve se encarar como destinatária, contrapõe a rudeza de algumas experiências vividas por esses jovens e a leveza de seus sonhos. Uma transformação que precisa ser pavimentada por políticas públicas que garantam equidade de acesso aos direitos básicos, mas também o enfrentamento bem posicionado da violência em bairros sob o domínio do tráfico.
Aquele adolescente de 14 anos que narrou a prisão do pai e a vida pregressa da mãe é um exemplo de que o desejo de mudança é o que move esses jovens. "Quero ser igual à minha mãe, uma grande chefe de cozinha. E quanto ao mau exemplo do passado dos meus pais... O meu passado foi uma droga, mas o meu presente é diferente."

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