"Vejo muitos traficantes na rua, não tem como escapar. Vejo muitos pinos de cocaína espalhados pelo meu bairro. A praça é o meu lugar preferido de brincar, mas lá eu já vi o pai da minha amiga morto." Este é um dos vários relatos duros e emocionantes de crianças e adolescentes que fazem parte do
Projeto Recriar ES.
Localizado em
Vila Velha, a instituição não tem fins lucrativos, mas possui um objetivo muito bem definido: ajudar jovens do bairro Boa Vista II, com atividades e alimentação, para evitar que eles caiam no mundo do crime. As aspas que abrem este texto são de uma carta cujo tema era 'A minha vida não é uma droga'.
A iniciativa despretensiosa é da coordenadora Melissa Alves. "Cada carta é uma emoção, uma história diferente, algo que alguém já viveu ou vive dentro de casa. Os meus 'humaninhos' me encantam, mas confesso que lendo, fiquei muito emocionada", disse, com a voz embargada, em entrevista à TV Gazeta.
O dono do melhor relato ganhará um tablet. No entanto, essa premiação pode enganar sobre a atual situação enfrentada pelo projeto: segundo a coordenadora, a alimentação estava garantida apenas até esta terça-feira (15) e a estrutura dá sinais de esgotamento, como o forro do teto que desabou após chuvas.
Ao todo, o projeto acolhe cerca de 120 crianças e adolescentes. Para muitos deles, a refeição feita no local é a única ou a mais completa do dia. Morador do bairro, o guarda municipal Márcio Ferreira é voluntário no Recriar e tem plena consciência da importância da ONG continuar funcionando.
"Eu cheguei em Boa Vista II com oito anos de idade e, infelizmente, muitos amigos e pessoas que cresceram comigo não estão mais aqui, porque foram por outros caminhos, do tráfico de drogas, de uma vida errada", relatou, feliz de poder servir como uma "ferramenta" para que esses jovens sejam "pessoas de bem".
Com informações de André Falcão