Asfixia de Manaus é resultado da omissão acumulada

A tragédia também é argumento contra os que questionam a importância da vacinação em massa: com a vacina, casos graves que necessitam de internação serão reduzidos, evitando o colapso do sistema de saúde

Publicado em 15/01/2021 às 19h24
Oxigênio
Agente de saúde reage no hospital Getúlio Vargas, em meio a surto de Covid-19 e falta de oxigênio em Manaus. Crédito: REUTERS/ Bruno Kelly/AP

Manaus vive a calamidade de ter hospitais sem oxigêniodoentes transferidos para outros Estados, cemitérios sem vagas e toque de recolher noturno, tornando-se novamente o epicentro da pandemia no Brasil, com o colapso do sistema de saúde em um nível sem precedentes no país.

Há quase um ano, as notícias que vinham da Itália atormentavam o mundo justamente porque ali se expunha a tragédia que é a impossibilidade de se tratar seus doentes, não somente as vítimas da Covid-19, por carências de infraestrutura e falta de vagas, por conta da sobrecarga de pacientes. 

A asfixia de Manaus não é fruto do imponderável: é resultado da omissão acumulada. O que cai tanto na conta de um governo federal negacionista quanto na de um governo estadual sob acusações de corrupção e negligência. Não adianta polarizar ainda mais as responsabilidades: onde há falta de comprometimento sério para gerir a crise sanitária, com foco na ciência e na boa administração pública, é onde estão os verdadeiros culpados pela tragédia manauara.

As dificuldades logísticas estão sendo repetidamente reportadas como a causa do desabastecimento de oxigênio no Amazonas. Com o aumento vertiginoso da demanda, deu-se a crise. A informação é de que o consumo  em períodos sem pico de internação é entre 15 e 17 mil metros cúbicos por dia.  Na quinta-feira (14),  esse consumo atingiu 76,5 mil metros cúbicos.

Sabendo-se que o transporte do insumo é predominantemente aéreo, pelas dificuldades de acesso por terra à região, e dos cuidados que o cercam, é inconcebível que, em plena pandemia, não tenha havido um esforço contingencial para evitar o caos por que passa Manaus. Justamente a cidade que foi o símbolo da letalidade da Covid-19 no início da crise sanitária pede socorro, mais uma vez.

A falta de oxigênio em Manaus representa o descaso com tudo o que vem sendo preconizado há quase um ano. O distanciamento social e o uso de máscaras não são caprichos, são decisões pessoais que definem o cenário pandêmico. O pico de internações em Manaus tem tudo para estar relacionado aos excessos do fim do ano. 

É preciso entender que se trata de uma cadeia de acontecimentos: a negligência de quem se afunda nas aglomerações tem consequências diretas para a saúde pública. Se isso é estimulado pelos governantes, o quadro é ainda mais dramático.

E a tragédia de Manaus também serve de argumento para os que questionam a importância da vacinação em massa. O resultado da eficácia da Coronavac é exemplar: ao ter sido comprovado que 100% dos que se vacinaram não tiveram casos graves da Covid-19, ficou evidente a relevância da vacina para a saúde pública. Com uma população plenamente vacinada, reduzem-se os casos que necessitam internação e, consequentemente, não há sobrecarga no sistema de saúde. É uma lógica simples.

Em Manaus, médicos se revezam para realizar a ventilação manual dos pacientes, que agonizam diante de tamanho descaso. "Quando a gente vê que não tem mais jeito, iniciamos a morfina", relatou uma médica que está atuando como voluntária em um dos hospitais. Manaus precisa voltar a respirar.

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