"Quando vemos que não tem mais jeito, iniciamos a morfina": veja relatos de Manaus

Hospitais do Amazonas colapsam por falta de oxigênio e pacientes morrem asfixiados. Profissionais de saúde relatam situação dramática

Publicado em 15/01/2021 às 13h00
Atualizado em 15/01/2021 às 13h31
Agente de saúde reage no hospital Getulio Vargas, em meio a surto de doença coronavírus (COVID-19) em Manaus, Brasil, em 14 de janeiro de 2021. REUTERS / Bruno Kelly ORG XMIT: GGGRJO05
Agente de saúde reage no hospital Getulio Vargas, em meio a surto de doença coronavírus (COVID-19) em Manaus. Crédito: REUTERS/ Bruno Kelly/AP

Com a nova explosão de casos de Covid-19 no Amazonas, o estoque de oxigênio acabou em vários hospitais de Manaus nesta quinta-feira (14), levando pacientes à morte por asfixia, segundo médicos. O governo federal anunciou que levará pacientes para outros Estados - é estimada a necessidade de 750 transferências. Profissionais de saúde disseram ainda que hospitais fecharam as portas nesta quinta, por falta de insumos e leitos, e precisaram de apoio da PM para evitar invasões. O governo estadual diz o que Amazonas vive a fase mais crítica da pandemia. "Quando a gente vê que não tem mais jeito, iniciamos a morfina, para dar algum conforto", diz médica (leia relato completo abaixo).

O Hospital Universitário Getúlio Vargas, ligado à Universidade Federal do Amazonas (UFAM), ficou cerca de quatro horas sem o insumo na manhã de ontem. Segundo um profissional ouvido pelo Estadão e que não quis se identificar, o oxigênio acabou na madrugada, gerando desespero nas equipes de saúde. O hospital teria recebido cilindros às 12 horas, capazes de oferecer ajuda a pacientes por apenas mais duas horas.

"Colegas perderam pacientes na UTI por causa da falta de oxigênio. Eles ainda tentaram ambuzar (ventilar manualmente), mas foi só para tentar até o último recurso mesmo, porque é inviável manter isso por muito tempo. Cansa muito, tem de revezar profissionais. Chamaram residentes para ajudar na ventilação manual. A vontade que dá é de chorar o tempo inteiro. Você vê o paciente morrendo na sua frente e não pode fazer nada. É como se ver na guerra e não ter armas para lutar", disse outra médica da unidade. Nas redes sociais, profissionais do Getúlio Vargas também divulgaram pedidos de ajuda.

O Pronto-Socorro 28 de Agosto, o Hospital Universitário Getúlio Vargas e o SPA (serviço de pronto-atendimento) Alvorada chegaram a fechar as portas por não terem condições de atender novos pacientes. Em frente a essas três unidades houve tumulto e a PM foi acionada para impedir a entrada à força de quem buscava atendimento.

"Estamos perdendo vidas. Há algumas semanas a gente já vinha citando que era um cenário de guerra e que o caos iria se instalar", afirmou o presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas, Mário Viana.

Conforme relatos de outros profissionais de saúde publicados nas redes sociais, a maioria dos hospitais sofre com o mesmo problema. Há registro de falta do insumo nos hospitais Fundação de Medicina Tropical e nos SPAs de Manaus.

Segundo Marcellus Campêllo, secretário da Saúde do Amazonas, as empresas fornecedoras de oxigênio entraram em colapso por não conseguir atender à demanda, que dobrou em relação a abril e maio. "No 1º pico, o consumo máximo foi de 30 mil m³ de oxigênio e, neste momento, estamos com consumo acima de 70 mil m³." O prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), atribuiu o desabastecimento ao isolamento geográfico do Estado.

O procurador de Justiça Caio Dessa Cyrino, que tinha um filho internado no Hospital Fundação de Medicina Tropical, disse ao Estadão que pela manhã não havia oxigênio para nenhum paciente. "Minha nora me ligou às 5h, quando ela foi lá visitá-lo, avisando que tinha acabado. Ele estava no 3º dia de UTI e evoluindo bem. Por sorte, eu tinha uma 'bala' de oxigênio em casa e corri para o hospital para levar. Quando cheguei com a bala na mão, vi o olhar de desespero dos médicos, servidores. Estavam em choque, sem poder fazer nada."

Mário Viana

Presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas

"Estamos perdendo vidas. Há algumas semanas a gente já vinha citando que era um cenário de guerra e que o caos iria se instalar"

Ele conta que o filho, de 36 anos, começou a se sentir mal há quase duas semanas, mas logo no início não achou vaga em hospital e ficou em home care, por isso ele tinha oxigênio. Ele conseguiu contratar uma UTI aérea para transferir o filho para São Paulo. "Mas quantas centenas não têm como fazer isso e podem morrer hoje?"

Segundo o governo local, inicialmente 235 pacientes serão enviados para Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Goiás e Distrito Federal. A União vai apoiar a transferência, em aviões militares, de pacientes com quadros moderados, em condições de serem levados.

Mesmo unidades que ainda não chegaram ao fim do estoque, como o PS 28 de Agosto, há receio. Médico na unidade, Diemerson Silva diz que a demanda por oxigênio se intensificou com a alta de internações pela Covid. Ele conta que o hospital tinha ontem ao menos cem pacientes com necessidade de oxigenação. "Chegam muitos a cada hora e não sabemos até quando vamos conseguir ofertar."

Igor Spindola, procurador do Ministério Público Federal no Amazonas, ingressou com ação na Justiça, em que cobra medidas da União. "As pessoas estão sufocando, morrendo asfixiadas", disse ao Estadão. 

"Ajudei a ambuzar pacientes; um deles morreu na minha frente", diz médica

"O estoque de oxigênio acabou no Hospital Getúlio Vargas por volta das 6h30. Sou médica residente e não costumo trabalhar diretamente no atendimento a pacientes com Covid, mas, quando soube do que estava acontecendo, fui para a ala Covid como voluntária porque os colegas precisavam de ajuda para ambuzar (ventilar manualmente) os pacientes. Nesse procedimento, a gente fica apertando uma bolsa ininterruptamente para bombear manualmente o oxigênio para o paciente.

Aquilo cansa. Quando uma pessoa da equipe chega no limite da exaustão, ela reveza com outro profissional. Durante o tempo em que fiquei na UTI, ajudei a ambuzar três pacientes. Um deles, de 50 anos, morreu na minha frente. Quando a gente vê que não tem mais jeito, iniciamos a morfina, para dar algum conforto. Tivemos de fazer isso com ele. Demos morfina e midazolam (sedativo). A gente já chorou e não sabe mais o que fazer.

Só no Getúlio Vargas foram pelo menos cinco óbitos pela falta de oxigênio. No fim da manhã, começaram a chegar alguns cilindros vindos de doações. Os médicos fizeram campanha na internet pedindo que pessoas que tivessem algum estoque em casa levassem para o hospital."

Manaus (AM) Amazonas Coronavírus Covid-19 Profissionais da saúde

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