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Os impactos para o ES da mudança histórica no controle da Vale

Mineradora passa a ter gestão pulverizada a partir de 9 de novembro; segundo analistas, mudança deixará peso de decisões a cargo do conselho administrativo da companhia

Publicado em 28/10/2020 às 05h00
Atualizado em 28/10/2020 às 05h00
Porto de Tubarão da Vale em Vitória
Porto de Tubarão em Camburi, em Vitória, onde a Vale movimenta escoa e minério de ferro e pelotas fabricadas no Espírito Santo. Crédito: Agência Vale/Divulgação

Vale está prestes a encarar outra mudança histórica, 23 anos após a privatização, em 1997. A partir de 9 de novembro, a mineradora vai se transformar em corporação sem grupo de controle acionário definido.

Na prática, o controle será pulverizado entre diferentes investidores, de forma que nenhum deles tenha uma fatia igual ou maior que 25% do capital da companhia. Caso um acionista atinja esse percentual, eventualmente, precisará fazer uma oferta pública de aquisição de ações aos demais investidores.

Atualmente, o grupo de controle da Vale – que, na última sexta-feira (23), tinha valor de mercado de R$ 335,3 bilhões – é composto de alguns grandes investidores institucionais, que, em ação conjunta, dão as cartas a partir de posição acionária equivalente a cerca de um terço do capital social da companhia.

Pátio da Vale com novo produto celulósico nas pilhas de minério de ferro
Pátio da Vale com novo produto celulósico nas pilhas de minério de ferro. Crédito: Marcelo Rosa/Agência Vale/Divulgação

Essa liderança permite que elejam a maioria dos integrantes do conselho de administração da empresa, que é uma das maiores produtoras de minério de ferro do mundo e que representa algo em torno de 15% do PIB (Produto Interno Bruto) do Espírito Santo.

Essa ação conjunta foi possibilitada por meio de um acordo de acionistas assinado em 2017 e que expira em duas semanas.

Com o término do acordo, podem ficar livres para a venda 20,26% das ações da mineradora, algo como R$ 66,7 bilhões, tomando por base o valor de mercado na segunda-feira (26).

Isso abre espaço para uma série de mudanças societárias e de governança, conforme avaliou o especialista em governança corporativa Adriano Salvi, da Vix Partners Consultoria.

“As decisões vão deixar de estar restritas nas mãos de poucos investidores e vão ser decididas em votos em assembleia. Existe um desafio de fazer com que as assembleias funcionem bem, que haja presença de acionistas para poder estabelecer estratégias, numa companhia do porte da Vale. Então, a tendência é que o papel do conselho de administração ganhe uma importância muito maior.”

Como o acordo foi criado já com a previsão de que durasse somente três anos, o especialista destaca que a empresa já se preparava para isso e não deve haver prejuízo às operações, inclusive no Estado.

“Claro que o movimento é grande. Mudar o centro do poder de um grupo de controle para o conselho administrativo é um grande passo. Mas, a princípio, não vejo como as operações poderiam ser afetadas. Mudanças relacionadas à operação são uma questão mais estratégica, que independem dessa mudança.”

O ponto é reforçado pelo presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico do Estado do Espírito Santo (Sindifer), que representa os industriais, Luis Soares Cordeiro, segundo o qual, nem as operações, nem os trabalhadores no Estado devem ser afetados.

“Independentemente do fim do acordo, os acionistas vão sempre buscar o melhor para a empresa, e, de uma forma geral, precisa de alinhamento de seus trabalhadores para manter o nível de produção, sejam trabalhadores próprios ou terceirizados. Então, não deve haver nenhum prejuízo.”

Uma fonte próxima à empresa destacou que os impactos para o Estado serão mínimos, se existirem. "Apesar do acordo, a Vale já roda mais ou menos desse jeito no momento. Então, na prática, não deve mudar muita coisa."

Doutor em Controladoria e Finanças e professor da Fucape, Aziz Beiruth também considera que não devem haver reflexos nas operações, e, longe de ser prejudicada, a mudança abre espaço para a chegada de novos investidores. "É um modelo de negócios bastante comum em outros lugares. Nos Estados Unidos, principalmente.  E costuma funcionar bem."

SEM CONTROLE ACIONÁRIO DEFINIDO, BRF ACUMULA PREJUÍZOS

Criada em 2009 a partir da união entre as arquirrivais Perdigão e Sadia, a BRF – um dos casos mais conhecidos de grandes companhias de capital pulverizado no país – ainda sofre com os impactos da divisão entre os sócios sobre o futuro dos negócios.

A empresa também incluiu no estatuto social cláusula segundo a qual se algum acionista comprar mais do que 33,33% do capital fica obrigado a fazer uma oferta pública a todos os investidores da companhia.

O que parecia um bom negócio resultou em trocas de comando constantes no conselho de administração, movidas por prioridades divergentes – expansão ou corte de custos, por exemplo – , com resultados desfavoráveis, que culminaram na perda de cerca de 76% do valor de mercado da companhia em cinco anos.

O capital, que era de quase R$ 63 bilhões em meados de 2015, hoje não passa de R$ 15 bilhões, conforme apurou o Valor Econômico.

Embora desde 2018, com a chegada de Pedro Parente ao comando do conselho de administração, os resultados da BRF tenham melhorado, a companhia ainda não se recuperou de todos os prejuízos do passado e não há dividendos há quase cinco anos, o que desagrada acionistas e ajuda a afastar eventuais investidores.

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