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"Hay que endurecer"...

Secretário da Saúde está gritando. Estará ele gritando no deserto?

Nésio Fernandes mantém tom de voz tranquilo, praticamente inalterável, mas seu recado tem sido mais impactante a cada dia: se hábitos não forem mudados, explosão de mortes no ES em junho é inevitável. "Grito" também pode ser para dentro do governo

Publicado em 04 de Junho de 2020 às 15:21

Públicado em 

04 jun 2020 às 15:21
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

O secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, em entrevista à TV Gazeta nesta quinta-feira (28)
O secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, em entrevista à TV Gazeta nesta quinta-feira (28) Crédito: Reprodução / TV Gazeta
“Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás.” A frase, umas das mais reproduzidas no século XX, é atribuída ao médico e guerrilheiro argentino Ernesto “Che” Guevara, que, em 1959, ao lado do advogado cubano Fidel Castro, liderou a revolução em Cuba, país onde o secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB), fez a sua graduação em Medicina. Na sinfonia de vozes que o compõe, a mensagem que o governo Casagrande parece querer transmitir no momento à sociedade capixaba, na condução da crise da pandemia do novo coronavírus, é uma paráfrase da máxima guevarista: “Hay que endurecer, pero sin perder la apertura jamás”: é preciso endurecer o cumprimento das medidas de isolamento social, mas sem perder de vista a necessidade de reabertura gradual das atividades econômicas.
O governo Casagrande vive dias de “conflito dialético”: por um lado, desde meados de maio, tem autorizado a retomada paulatina das atividades comerciais, o que gera uma sensação coletiva de retorno gradual à normalidade da vida cotidiana; ao mesmo tempo, exorta os cidadãos a só saírem de casa em caso de absoluta necessidade, enquanto alerta diariamente a sociedade capixaba para a iminente superlotação dos leitos de UTI para pacientes com Covid-19 e para o risco real de municípios entrarem, tecnicamente, em situação de “risco extremo”, caso esse em que, avisam secretários, o governo não hesitará em adotar medidas restritivas mais severas. Parece um pouco conflitante. E é. Será que essa “relação dialética” entre “clausura” e “apertura” pode funcionar? Hay dudas.
Em conversa com a coluna na última segunda-feira (1º), publicada aqui no dia seguinte, o secretário de Estado de Governo, Tyago Hoffmann (PSB), uma das vozes importantes dessa polifonia e espécie de coordenador das ações do governo, negou que haja qualquer ruído interno, muito menos “disputa de discursos” entre secretários. Disse, ainda, que não é justo que só um segmento (no caso, o comércio) assuma toda a carga de sacrifício e seja penalizado enquanto pessoas não cumprem as normas mais básicas de distanciamento social (por exemplo, enchendo praias e calçadões).
Hoffmann também frisou que o governo está procurando pôr em prática um “plano de convivência” com o vírus e que busca a conciliação entre os cuidados sanitários e uma reabertura segura de atividades fechadas por dois meses, de modo a não asfixiar um setor e quebrar pais de família. Ok. Ele voltou a enfatizar, porém: “Não estamos longe desse risco extremo não”.
Enquanto isso, o secretário Nésio Fernandes, sem modificar o tom de voz, está praticamente gritando. Chega a ser curioso, porque o chefe da pasta da Saúde realmente é dono de uma fala mansa, inalterável, mas seu recado tem sido mais impactante a cada dia. Suas palavras gritam, no teor, em contraste com o tom em que são ditas.
Nesta quarta-feira (3), sem dar voltas nem dourar a pílula, Nésio fez o seguinte post em sua conta pessoal no Twitter: “No dia 2 de junho: 529 pcts [pacientes] em UTI, rede pública e privada, destes 60% em ventilação mecânica, destes 65-70% vão evoluir a óbito, considerando tempo de permanência em UTI de 7-9 dias, teremos 22-23 óbitos/dia”.
O tom seco do tweet, repleto de números e projeções estatísticas, pode transmitir frieza de quem trata vidas como números, mas não é isso! Nitidamente, Nésio busca gerar algum impacto, um “choque de realidade nua e crua” para quem ainda insiste em desprezar a letalidade da pandemia e a gravidade do momento crítico em que o Espírito Santo se encontra. Ou seja, em que nós todos nos encontramos.
Um dia antes (2), em entrevista à CBN, Nésio previu uma situação “muito tensa” no Espírito Santo nos próximos 15 dias e afirmou que, se a proporção de casos se mantiver, o cenário será de “difícil manejo” e o número total de mortes no Estado pode chegar a 1,2 mil (praticamente dobrar) no mês de junho.
O mesmo Nésio, na última sexta-feira (29), já advertira: “As próximas semanas serão muito intensas, como nós temos alertado [...]. E nós estamos alertando que, se o conjunto da sociedade não aumentar o distanciamento social, nós, em junho, teremos um mês muito intenso. Nós, em junho, podemos ter que tomar medidas extremas no Estado do Espírito Santo”.
Nésio está gritando como pode, praticamente se esgoelando, apesar da fala mansa e inalterada. Resta saber se está gritando no deserto.
E os números mais recentes da pandemia, tanto nacionais como estaduais, indicam que o secretário tem razão em suas projeções:

ES E BRASIL: RECORDE TERRÍVEL ATRÁS DE RECORDE TERRÍVEL

Nesse mesmo dia, a Secretaria de Estado da Saúde também divulgou a situação crítica da demanda por leitos de UTI para a Covid-19 em todo o Estado, contando os hospitais públicos e privados. A taxa de ocupação, naquele dia, chegou a 82,43% dos 575 leitos disponíveis. Na Grande Vitória, a situação já era ainda mais alarmante, com ocupação de 89,4% dos 415 leitos de UTI disponíveis para pacientes da doença. Na véspera (1º), a taxa na Grande Vitória havia chegado a 90%.
Já a taxa de ocupação de leitos caiu ligeiramente na Grande Vitória, de 89,4% para 87,86%. Mas a de todo o Estado mais uma vez subiu um pouco, de 82,43% para 82,69%, mantendo o ritmo consistente de aumento.

ATUALIZAÇÃO

Cerca de uma hora após a publicação deste texto, a Secretaria de Estado da Saúde divulgou o balanço desta quinta-feira (4). Infelizmente, novo recorde negativo foi estabelecido no Espírito Santo: nas últimas 24 horas, foram contabilizadas 39 mortes, superando a marca de 36 registradas na última terça. Nos últimos três dias, a série de óbitos foi 36-34-39: média de 36,33 óbitos/dia. Podemos concluir que, talvez, Nésio tenha sido até conservador em seu tweet citado acima ("22-23 óbitos/dia", em junho). O total no Estado já está em 737.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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