Em 2018, se Cachoeiro de Itapemirim representasse o Brasil inteiro, Jair Bolsonaro teria sido eleito no 1º turno, com 67% dos votos válidos. De cada três votos computados, dois foram para ele. No 2º turno, o massacre foi maior: o capitão reformado derrotou Haddad na cidade com 75% dos votos válidos. Para cada voto do petista, Bolsonaro teve três. Embora cachoeirenses tenham elegido Carlos Casteglione (PT) por dois mandatos não faz muito tempo (em 2008 e 2012), até petistas de Cachoeiro admitem: a cidade é muito conservadora e sua população, hoje, majoritariamente bolsonarista.
Nessa conjuntura, seria de esperar que um prefeito filiado ao PSB, partido de centro-esquerda, apoiado por Renato Casagrande, por sua vez maior líder “socialista” no Estado… enfim, seria de esperar que esse prefeito fosse trucidado nas urnas agora pelos eleitores cachoeirenses. Esse prefeito “esquerdista”, “comunista” etc. não teria a menor chance de alcançar a reeleição em um reduto conservador e bolsonarista como esse, certo?
Errado. Completamente errado.
Com 406 entrevistas e confiabilidade de 95%, a pesquisa Ibope/Rede Gazeta publicada na noite desta quarta-feira (21) revela um quadro eleitoral que subverte esse lugar-comum na disputa pelo Executivo de Cachoeiro. O atual prefeito, Victor Coelho (PSB), atinge hoje incríveis 62% dos votos válidos, contra 10% do 2º colocado, o vice-prefeito Jonas Nogueira (PL), em uma eleição que nem sequer pode ter 2º turno.
Para não me arriscar totalmente aqui e carimbar que o atual prefeito já está reeleito, direi “apenas” que só um cataclisma eleitoral sem precedentes pode tirar de Coelho esse segundo triunfo em sequência. Repita-se: em um reduto considerado extremamente conservador e identificado com o radical de direita que exerce a Presidência da República.
Em tese, portanto, estamos falando de um eleitorado que deveria ser altamente refratário a qualquer candidato considerado de esquerda e mais ainda a um candidato filiado a um partido que tem “socialista” até na sigla.
A MENOS QUE...
A menos que esteja errada essa tese que tenta a todo custo transpor para disputas locais a polarização e a radicalização político-ideológica que apoderaram-se da política nacional nos últimos anos e que foram tão determinantes na eleição presidencial de 2018. Parece-me o caso: essa tese, leitoras e leitores, está terrivelmente furada.
Com o abissal favoritismo de Coelho nessa disputa municipal e suas altíssimas probabilidades de novo sucesso nas urnas em meio a um colégio de eleitores bolsonaristas, o prefeito ajuda a subverter respostas fáceis e prontas, além de provar que disputas locais são bem menos influenciadas por questões ideológicas do que alguns querem fazer crer.
Esse case de Cachoeiro – na verdade, um de tantos Brasil afora – só reforça o quanto está equivocada a “compreensão binária” a respeito da atividade política: aquela que vê tudo sem nuances (A ou B, preto ou banco etc.), como se tudo se reduzisse a uma disputa maniqueísta entre uma “direita” e uma “esquerda” pretensamente unificadas.
Como já defendemos aqui em mais de uma ocasião, há muitas e muitas “direitas”, como também há “esquerdas” e “esquerdas”, além de várias camadas e divergências dentro de cada campo.
Subsumir a política a uma disputa do “bem” contra o “mal”, com papéis variando conforme o ponto de vista de cada um (todo o bem encarnado por mim e meus aliados; todo o mal concentrado em meus adversários/inimigos a serem “sepultados”)... Eis aí uma prova de má-fé, ingenuidade ou miopia.
Além disso, conforme já defendemos aqui, em uma eleição municipal como essa, questões locais devem prevalecer sobre essa “guerra ideológica” que 1) interessa a quem mesmo? 2) não é o que vai iluminar melhor a minha rua nem garantir merenda de qualidade para o meu filho.
Um debate intelectualmente honesto que toque em questões concretas, em problemas reais dos moradores, bem como em soluções realistas para saná-los: eis o que deve predominar em uma eleição para o cargo de prefeito.
PREFEITO SUPER BEM AVALIADO
O que explica então essa boa performance de Coelho nas intenções de voto, se a ideologia está passando longe? Simples. A resposta está no dado mais óbvio e ao mesmo tempo mais importante quando se trata de um prefeito que busca a reeleição: qual é a avaliação que os moradores da cidade fazem acerca do trabalho do próprio prefeito?
E é aí que Coelho sobressai, com 63% de aprovação (contra 30% de reprovação) e 48% de bom e ótimo, ante 17% de ruim e péssimo. Superando Audifax Barcelos (Rede), da Serra, é o prefeito mais bem avaliado dos cinco já testados na série Ibope/Rede Gazeta até agora.
Com indicadores tão positivos, qualquer questão de fundo ideológico se torna menor, para não dizer irrelevante. O que pesa de verdade é a qualidade e a eficiência do trabalho.
CRUZAMENTO DE DADOS
Alguns dados eloquentes fornecidos pela pesquisa do Ibope em Cachoeiro mostram o quanto, na cidade, a preferência dos eleitores por Victor Coelho não tem absolutamente nada a ver com questões político-ideológicas estaduais e nacionais.
Em primeiro lugar, a maior parte dos entrevistados (41%) considera apenas “regular” o governo de Renato Casagrande, aliado de Victor Coelho. Para 36%, ele é bom ou ótimo.
Em segundo lugar, o presidente Bolsonaro – como era até certo ponto previsível em tal reduto – tem predomínio de avaliações positivas: para 47%, sua administração é boa ou ótima.
Em terceiro lugar, candidatos bem identificados com o discurso bolsonarista não estão bem na pesquisa: Jonas Nogueira tem 8% na intenção estimulada, enquanto o subtenente Paulo Sérgio Alemães (PTB) não passa de 1%.
Em quarto lugar, no cruzamento de dados, o prefeito atinge seus picos de intenções de voto justamente entre os eleitores mais velhos (que, embora não seja regra, tendem a ser mais conservadores). Entre quem tem 55 anos ou mais, ele hoje teria o voto de 61% dos entrevistados.
Também é nos mais velhos que o prefeito encontra seus melhores índices de aprovação. Nesse grupo, 64% o consideram bom ou ótimo, contra 9% de ruim ou péssimo. Na mesma faixa etária, 70% aprovam seu trabalho, enquanto 19% o reprovam.