“É na cidade que vivem as pessoas”, diz um surrado, mas acertado ditado muito repetido no universo político. Questões que dizem respeito diretamente ao cidadão e à sua qualidade de vida vão do calçamento da rua à merenda escolar nas creches; da iluminação pública ao atendimento nos postos de saúde; do PDU ao sistema de transporte público; do trânsito à segurança das pessoas; acima de tudo, o orçamento municipal e a necessidade de se pensar e adotar estratégias para incrementar a receita pública num momento em que todas as cidades sofrem queda grave de arrecadação, resultante da pandemia. Afinal, são esses recursos que permitirão os investimentos necessários à melhoria da vida das pessoas nos próximos anos.
São questões como essas que devem ser enfatizadas pelos candidatos a prefeito nas eleições municipais que se avizinham. Propostas, programas e políticas públicas devem preponderar sobre o Fla x Flu ideológico da “direita” contra a “esquerda” e vice-versa. Espera-se que uma agenda concreta para os problemas reais enfrentados pelos munícipes tenha a primazia nos debates, na propaganda e na plataforma de campanha dos candidatos. E não que se perca, mais uma vez, em uma discussão de fundo ideológico, por vezes muito artificial, que pode simplesmente encobrir os debates realmente necessários sobre os temas mais prementes das nossas cidades.
Claro, a ideologia está presente em tudo, mais ainda quando se trata de uma disputa por poder político. Ninguém aqui tem a veleidade, tampouco a pretensão, de querer sacar completamente do tabuleiro o fator ideológico. O que problematizamos é a ênfase que se dará a isso. Até que ponto aquela polarização ideológica que dominou a eleição presidencial de 2018 vai se reproduzir agora, em menor escala, nas disputas locais?
Na minha avaliação, a predominar novamente um cenário de maniqueísmo ideológico, podemos ter um problema parecido ao que houve em 2018: muito "comunismo", "fascismo", Venezuela, Cuba, armamento, “kit gay”, Deus, pátria, família etc... e as discussões sobre as questões concretas e mais urgentes do país, que demandavam a máxima atenção, deixadas em último plano.
A campanha de 2018, a propósito, deveria nos servir de exemplo e de alerta. É uma prova de como essa cortina de fumaça pode ser problemática. O eleitor legitimamente fez sua escolha. Mas, uma vez eleito o presidente, as primeiras perguntas surgiram: Muito bem, e agora? O que Jair Bolsonaro realmente pensa e o que realmente fará com relação aos problemas reais que estarão em sua mesa? À parte o documento eivado de discurso ideológico apresentado ao TSE, pomposamente intitulado “O Caminho da Prosperidade”, qual é o seu plano de governo?
Muito pouco se sabia, porque, na verdade, muito pouco efetivamente foi explicado. Um exemplo gritante está na área mais estratégica justamente para a “prosperidade” de toda nação, bem como para o sucesso ou fracasso de todo governo: “É a economia, estúpido”*.
Desde 2014, o país acumulava anos de recessão ou crescimento econômico pífio, de cerca de 1% ao ano. Urgia recuperar a economia. Mas como fazê-lo? Para toda e qualquer pergunta que rescendesse a matéria econômica, a resposta pronta do candidato favorito nas pesquisas era “Posto Ipiranga”. O que pensava o candidato, por exemplo, sobre o problema do rombo previdenciário no Brasil? Nunca se soube em detalhes. A resposta veio e segue vindo, monotemática, por parte do “posto” em questão: reformas. Reformas liberais e modernizadoras, para racionalizar o gasto público, zerar o déficit fiscal, melhorar o ambiente de negócios e tornar o país mais atraente para o capital estrangeiro. Tá ok!
Mas Bolsonaro seguiu alheio a tal discussão, como se não fosse com ele. O governo assumiu e, a duras penas, após quase um ano de tramitação, o pacote da reforma previdenciária, prioritário para a equipe de Paulo Guedes, foi aprovado no Congresso, contudo desidratado. Passou mais por empenho dos próprios líderes da Câmara e do Senado que propriamente do presidente da República. A única vez que ele entrou com afinco na discussão foi para garantir que militares fossem excluídos do texto – derrubando, assim, o argumento de isonomia no tratamento: “todos deveriam contribuir para o esforço”.
Em 2019, num choque de realidade a investidores e agentes do mercado financeiro que apostaram em peso no candidato, o Brasil voltou a crescer só 1%. E agora, quase na metade do governo, vemos o mesmo alheamento por parte do presidente, que deveria protagonizar esse processo, na tramitação das reformas administrativa e tributária. Ninguém pode dizer que ele tenha mudado de postura ou que esses tenham sido temas proritários para ele quando candidato. Simplesmente, as pautas mais caras à equipe econômica de Bolsonaro foram ignoradas por ele na campanha. O candidato não tratou de agenda econômica. Ponto.
A QUESTÃO AMBIENTAL
Da mesma forma, durante a campanha, pouco ou nada se falou sobre políticas reais de preservação do meio ambiente. Ao contrário, a questão foi tratada, superficialmente, como se o verdadeiro problema fosse a atuação das ONGs, as reservas indígenas... como se “o problema ambiental” no país fossem os ambientalistas e a própria ideia de proteção ambiental, que atrapalharia a produção agropecuária e, assim, o crescimento econômico do país.
Com quase dois anos de governo, o que vemos é um acelerado desmonte da rede de proteção construída duramente por décadas, índices crescentes de queimadas e desmatamento tanto na Amazônia como no Pantanal, o filme do Brasil queimado no exterior e investidores na verdade fugindo do país, além de uma postura tão negacionista quanto no enfrentamento (se é que cabe aqui o termo) à pandemia, e Bolsonaro indo à ONU para, sem nenhuma surpresa, reduzir a questão das queimadas à ação de “índios e caboclos”. Isso é péssimo para a nossa economia.
EDUCAÇÃO E CULTURA
Durante a campanha, a discussão sobre o tema educação (essencial para o desenvolvimento social e econômico de qualquer nação) passou ao largo de problemas reais e urgentes como qualificação e valorização dos professores, aperfeiçoamento do currículo, combate à evasão escolar e expansão do ensino em tempo integral. Foi resumida ao famigerado “kit gay” e a uma discussão obsessiva sobre “ideologia de gênero” e “doutrinação ideológica”.
Chegando quase à metade do governo, temos um MEC que quase se tornou sigla de Ministério do Estado de Calamidade: agora no 4º ministro (os dois primeiros, notoriamente ineptos), o ministério está há quase dois anos paralisado e disfuncional, perdido em debates ideológicos periféricos que em nada solucionam as questões acima citadas, o que também é péssimo para a nossa economia.
De igual modo, no tópico cultura, durante a campanha, a discussão se reduziu a críticas à Lei Rouanet, mas o que efetivamente se propôs no lugar? O Ministério da Cultura acabou e foi rebaixado a uma secretaria, palco para protagonistas canastrões de autênticos vexames tragicômicos, como a passagem relâmpago da atriz Regina Duarte e o diretor teatral que queria ser o ministro da Propaganda de Hitler.
SAÚDE E PANDEMIA
Sobre saúde, durante a campanha, o que realmente se debateu e se propôs? O que o candidato pensava para essa área tão vital? Veio a pandemia e descobrimos que o presidente divergia totalmente do seu próprio ministro (nomeado por ele). Dois ministros que tentaram dar voz à ciência no meio da crise sanitária caíram em cerca de dois meses e (solução simplista dada a quase tudo no atual governo) encheu-se de militares o alto escalão do Ministério da Saúde.
BRASIL NO MUNDO
Nas relações exteriores, o discurso de campanha foi anti-Cuba e anti-Venezuela, e acenou-se com uma política externa “sem viés ideológico”. Tá ok, seria bom. Porém, mal começado o governo real, pôs-se em marcha uma política profundamente ideológica, só que às avessas, e o Brasil virou chacota no exterior por sua subserviênca explícita aos Estados Unidos (precisamente, a Trump), por seu negacionismo obtuso quanto à pandemia e ao desmatamento no país e porque nosso chanceler lançou e tem liderado praticamente uma cruzada fora de época contra o marxismo no Ocidente e contra uma agonizante ideia de comunismo que, na verdade, no mundo ocidental, jaz há mais de 30 anos sob os escombros do Muro de Berlim.
Isso sem falar nos esbarrões completamente desnecessários em parceiros como o mundo árabe, a Alemanha, a França, a Argentina... Nem seria preciso dizer: isso é igualmente péssimo para a nossa economia.
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COMBATE À POBREZA
Para muitos eleitores de Bolsonaro, sua vitória em 2018 decretava o fim sumário do Bolsa Família. Logo após a apuração das urnas, circularam memes que celebravam “o fim da mamata” e indicavam que, dali em diante, a única bolsa no país seria a de instrumentos de trabalho. Dedução lógica e compreensível: como deputado federal, o candidato vitorioso havia passado anos a repudiar o programa e a tachá-lo como mero instrumento para o voto de cabestro.
Contudo, já no meio do 2º turno, Bolsonaro acenara contraditoriamente com a ampliação do Bolsa Família e a criação de um 13º pagamento anual aos milhões de beneficiários. No poder, em 2019, chegou a negar a existência da fome no Brasil. Agora, diz que o programa é “essencial”. Paulo Guedes tentou formular o Renda Brasil, que substituiria o Bolsa Família. Ele e sua equipe foram publicamente desautorizados pelo presidente.
EM CONCLUSÃO...
Em 2018, enfim, não se se discutiram de verdade os problemas mais reais e mais urgentes do país. Passou-se ao largo de um debate necessário, racional e equilibrado, sobre os temas nacionais que exigiam atenção prioritária. Em vez de propostas, tivemos fumaça e barulho.
Que, nessa eleição municipal, uma discussão séria sobre os problemas das cidades e dos cidadãos prepondere sobre disputas ideológicas rasas e de baixa qualidade. As cidades agradecem. Os cidadãos, mais ainda.
* Frase cunhada pelo marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, para derrotar George Bush na corrida à Casa Branca em 1992.