Diretor de Riscos, Administração e Finanças do Bandes. Formado em Economia pela Ufes, com pós-graduação em Administração pela FGV e doutorando em Economia pela Ufes

Qual é o futuro da energia no Espírito Santo?

Economistas têm apontado a necessidade de o Estado diversificar e aumentar a complexidade de sua estrutura produtiva, agregando ao hub comercial, já existente, um hub industrial, o que demandará aumento na oferta de energia

Vitória
Publicado em 16/03/2024 às 01h15

O objetivo deste artigo é apresentar, em linhas gerais, grandes temas que estão em voga no debate sobre o futuro da energia no mundo, no Brasil e no Espírito Santo. E o (a) leitor (a) deve estar se perguntando: por que o assunto é relevante?

Primeiro, cabe lembrar que o setor industrial é um grande consumidor de energia: 36% no mundo, 32% no Brasil e 58% no Espírito Santo. Segundo, que vários países, inclusive o Brasil, desenvolvidos e em desenvolvimento, têm colocado de pé em políticas industriais para estimular o crescimento de seus setores produtivos, sobretudo a Indústria, o que demandará aumento da oferta de energia. E terceiro, cerca de 86% das emissões de dióxido de carbono (CO2) do mundo vêm da queima de combustíveis fósseis para a produção de energia e de mercadorias.

De acordo com dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), em 2020, “produção de energia” (18%) e “processos industriais” (5%) representaram 23% das emissões de gases de efeito estufa (GEE). Já no ES, “produção de energia” (32%) e “processos industriais” (31%) englobam 63% das emissões de GEE.

Levando-se em conta que no dia 5 de junho de 2020 a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou a campanha “Race to Zero” (“Corrida para o Zero”, numa tradução literal) com o objetivo de zerar as emissões de GEE até 2050, com a adesão de mais de 120 países, inclusive o Brasil, uma parte significativa das ações dessa “corrida” recai sobre o setor de energia e o setor industrial.

Nesse sentido, vale muito a pena a leitura da entrevista de Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), no último dia 9 de março para a Folha de São Paulo. Na minha opinião, a principal mensagem dessa entrevista é que o mundo está caminhando para geração e distribuição de energias renováveis.

Os investimentos na área devem triplicar até 2030 a capacidade de geração de energia limpa em 130 países, gerando 3,7 mil gigawatts (GW) adicionais, sendo que as energias eólica e solar serão responsáveis por 95% da expansão global. Ainda segundo o executivo, na Bioenergia, que representa metade da energia renovável global, o Brasil se coloca como potencial fornecedor, e o hidrogênio verde não é uma solução de curto prazo, embora seja muito promissora.

No Brasil, a expectativa é que serão investidos R$ 225 bilhões até 2026 na geração e transmissão de energia. Em termos de energias renováveis, quase R$ 65 bilhões serão investidos e 15.392 megawatts (MW) de potência serão gerados, mas a maior parte dos investimentos, R$ 192 bilhões, serão na geração de energias não renováveis - quase 70% em gás natural.

Contudo, mesmo sendo de origem fóssil, o gás natural consegue equilibrar a necessidade de redução de emissões, estabilidade produtiva e custo competitivo, sem impor grandes desafios às cadeias produtivas, já adaptadas a lidar com outros hidrocarbonetos, por apresentar o menor índice de emissões.

No Congresso Nacional estão tramitando cinco projetos de grande importância para a transição energética: o de mercado de crédito de carbono, do hidrogênio verde, dos biocombustíveis, da energia eólica offshore e do Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten).

No caso do Espírito Santo, os principais desafios para os próximos anos na área de energia são: 1) economistas, inclusive este que vos escreve, têm apontado a necessidade de o Estado diversificar e aumentar a complexidade de sua estrutura produtiva, agregando ao hub comercial, já existente, um hub industrial, o que demandará aumento na oferta de energia; 2) dados da Agência de Regulação de Serviços Públicos do ES (ARSP) mostram que a produção de energia renovável no Estado foi de 11,1% em 2021, inferior aos 39,5% do Brasil, o que significa um grande leque de oportunidade de investimentos em energias limpas no ES; e 3) também segundo números da ARSP, 46% da energia elétrica consumida no Estado é importada de outras regiões do país, o que de alguma forma condiciona a autonomia energética estadual.

E qual o potencial do Espírito Santo em termos de energia renovável? A ARSP possui vários estudos interessantes sobre esse aspecto: 1) Hidroeletricidade; 2) Bioenergia; 3) Solar - especialmente no Litoral Sul; 4) Eólica; 5) Gás natural.

De acordo com Atlas de 2022, o potencial eólico capixaba supera os 160 mil gigawatts ao ano.
De acordo com Atlas de 2022, o potencial eólico capixaba supera os 160 mil gigawatts ao ano. Crédito: Freepik

E o que tem sido feito sobre essa transição energética para uma matriz mais limpa no Espírito Santo? Algumas ações merecem ser destacadas: 1) Programa Gerar, que fomenta o uso de energias renováveis; 2) o governo estadual apresentou na COP 28, em Dubai, o Plano Estadual de Descarbonização e Neutralização de GEE; 3) governo estadual anunciou transição de uso dos combustíveis fosseis para biocombustíveis na frota da administração pública estadual; 4) a Energisa, que adquiriu a ES Gás, tem feito investimentos importantes para ampliação da distribuição de gás natural para o setor produtivo capixaba; 5) o setor produtivo também está se movimentando com projetos de energia solar, hidroeletricidade e biometano, e que tem contado com financiamento do Bandes; 6) a ARSP regulamentou a distribuição de biometano por meio do sistema de distribuição de gás.

Em suma, o Espírito Santo caminha para um futuro energético mais limpo e sustentável.

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