A seleção instituída para compor o elenco do time era rigorosa: tinha que ser médico, tinha que ser amigo. Mais nada.
Deixa eu ver se vou lembrando o nome dos gloriosos atletas do clube que ficava bem ali na estrada de Jacaraípe, do lado de quem vai. Já faz tempo, e havia outros combativos adversários no pedaço: Planalto, Fluminensinho, Vale do Sol, Clube dos 30...
Jogávamos aos sábados à tarde e na maioria das vezes entre nós mesmos. Foi uma linda trajetória de glória, empenho e companheirismo no esporte. Vão agora aparecendo imagens. Olho uma das fotos que perambulam pela minha memória, meu arquivo secreto. Vejo o craque do time: Wallace Berilurdes, para mim o melhor de nós na arte citada.
O pior era Glades Lessa, porém um marcador imbatível. Jamais abandonava a tarefa de grudar na canela do adversário, por mais driblado que fosse. Além disso, tinha a árdua missão, terminado o jogo, pelada ou não, de conferir as notas pelo desempenho de cada um. Todo mundo prestava a maior atenção. Tinha até juiz da federação e tudo na nossa porfia. Pensando o quê…
Deixa ver se eu lembro o nome de todo mundo. Já faz tempo. Vamos ao plantel. Perdoem-me se esquecer, sem querer, algum de nós, vou lembrando...
Edilson Suzano, Roberto Serpa, Dalmo Lora, Marcus Simonetti, Evanilo Silva, Cacá Goleiro, Maurinho da Cardio, Hilton Bacana, Sergio Ramos, Paulo Trindade, Eurico, Ademar de Barros, Vitor Buaiz, Moises Nader, Sandoval, Basilio, Mariano Peixoto e filhos, Severino Dantas, Osveraldo, Milton Goiabada, Sérgio Emery, Evandro Pretti, Rubinho Bianco, Carlinhos, Kamel, Dadinho, Getúlio... E tinha outros mais.
Por exemplo: aquele imenso colega nordestino e seus irmãos, não consigo lembrar os nomes, mas está aqui no fundo do peito onde moram as recordações, que são as únicas formas de afeto que não esmorecem...
Enfim, era uma agremiação de responsa, todos com suas cotas de proprietário e o encargo da manutenção.
A presidência se renovava da maneira mais democrática do mundo: ninguém queria ser presidente. Mas para isso também precisa vocação. Acho que Roberto Serpa, Dalmo Lora... assumiram.
Nosso campo era iluminado. Sabíamos o tamanho da largura e só... A profundidade era invisível. Dizem que nunca foi vista ou medida. Alguns suspeitávamos que pertencia, lá no fundo, a território indígena.
Havia uma igreja, não sei de que time, construída ao lado do campo. Mal começávamos a peleja e ela nos homenageava com músicas sacras pelo auto falante a toda altura. Talvez estivéssemos pecando ao ter prazer em brincar, quando deveríamos, quem sabe, estar rezando.
Anos e anos de humor e companheirismo, ainda mais se contarmos a reunião obrigatória no fantástico andar superior da sede, nos fundos do campo de futebol. Como tudo na vida...
O venerável Ouriço foi acabando aos poucos, com o tempo. A maioria já estava cansada e entrando nos anos. Ainda tentamos voltar, mesmo sabendo que faltava a alma da motivação que era a presença de todos. Claro que durou quase nada. Enfim, abdicamos do Clube com lágrimas nos olhos. Pelo menos eu, que nunca perdi um minuto lá desde que adentrei aquele gramado.
O amor perdido é irrecuperável. Aquele momento foi e está na memória especial da nossa história de vida. Imaginem só. Médicos qualificados cheios de coisa pra fazer não abriam mão daquele abraço afetivo simbólico de todos os sábados, fizesse sol ou chuva, a não ser, claro, nas emergências.
Um dia, caminhando pelos corredores do Ministério da Saúde do Espírito Santo, onde trabalho, passei por Berilurdes, o craque. Ele que não era de falar muito me concedeu o título: “Bonates, o clássico”.
Nunca fui tão reconhecido ou titulado em toda a minha vida.
Dorian Gray , meu cão vira-lata, balança a cabeça e dá uma risadinha.