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Política

Brasil e a CPI da Covid: a incrível República dos Mentirosos

O governo escolheu o ex-secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, para dar explicações a respeito do que deveriam ter feito para combater a pandemia. A verdade é que não fizeram absolutamente nada

Publicado em 18 de Maio de 2021 às 02:00

Públicado em 

18 mai 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Ex-secretário Especial de Comunicação do governo, Fábio Wajngarten
Ex-secretário Especial de Comunicação do governo, Fábio Wajngarten, não sabia mentir direito. Chegava a dar dó Crédito: Edilson Rodrigues
Outro dia o Congresso estava em guerra. O governo escolheu o ex-secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, para dar explicações a respeito do que deveriam ter feito para combater a pandemia da Covid-19. A verdade é que não fizeram absolutamente nada.
Os senadores atacantes, embora prenhes de razão, aproveitavam a fragilidade de um coelhinho encolhido e amedrontado. Os metralhas do poder jogaram o pobre do Wajngarten no meio de uma arena com uma única arma, gaguejar. O interrogado não sabia mentir direito. Chegava a dar dó.
Mas não se precipitem, esmigalharam e jogaram de pé em pé um pobre diabo sem argumento ou talento, a autoflagelação era reluzente. Nessa confusão, até o filho Rachadinha do presidente, em um dado momento, chamou o relator da CPI, Renan Calheiros, de vagabundo, e passaram a trocar farpas vergonhosas disputando quem ficaria com o troféu. Eu daria para os dois .Foi uma sujeira só, no fundo, no fundo, todos estão sempre do mesmo lado, com raríssimas exceções.
A discussão deve ser simples: o combate à pandemia na verdade nunca começou pra valer, e isso, até onde sabe a Ciência, já foi responsável pela morte de mais de 400 mil brasileiros, por omissão, cinismo e ignorância.
Mas, devagar com o andor, que o santo é de barro.
Nem todo mundo é obrigado a seguir a Ciência, a comprovação, a lógica, a testagem, o bom senso. Muito menos priorizar a observação de fenômenos históricos e analisar seu curso na História.
Cada um elege o ídolo que mais se adapta à sua identidade, vota em alguém que represente seus próprios critérios morais e sociais.
Respeitável público eleitor, nosso imperador tem precedente na História.
Pragmático, usava todo o seu poder baseado em si mesmo e em suas imediatas deduções. Alguns espíritos estreitos e amargamente positivos o chamariam de idiota. Mas que nada, era um César. Um dia, um feiticeiro segredou-lhe que a doença que assolava a Europa, a peste, era transmitida por ratos que se multiplicavam com incrível velocidade e que iriam comer todas as suas coxas de galinha, seu alimento predileto. “O que é multiplicar?”, teria perguntado.
Nero nasceu de Agripina. E não concebia a ideia de sendo ele tão gordo caber na barriga da mãe. Prático, como sempre, mandou abrir-lhe o ventre. O Centrão de Roma, dizem, realizou a maior orgia das paradas em comemoração ao fato histórico.
Quando os ratos, às toneladas, se multiplicaram mais e mais, o gênio se exaltou:
- Toquem fogo em Roma!
Em seguida, pegou a harpa e começou a tocar. (Alguns escravos capturados no Egito eram obrigados a ouvir. Outros preferiam a forca à audição).
Até hoje não se sabe ao certo onde foram parar os bichinhos. Há teóricos que consideram a hipótese de terem sido embarcados nos navios negreiros, passando-se por sambistas. Ao chegarem ao Brasil, não se sabe por qual rota, deram de cara com o movimento do sanitarista Oswaldo Cruz.
A atual pandemia da Covid-19 é uma boa hora para lembrarmos e refletirmos sobre a saúde pública brasileira. A História sempre nos traz lições importantes. Um desses momentos foi quando ocorreram no Rio de Janeiro epidemias de febre amarela, peste bubônica e varíola. Foi nessa época que o então jovem médico Oswaldo Cruz se destacou, tendo um papel decisivo para a erradicação das três doenças. (Fez falta em Roma).
Claro, alguns mandatários – aqui – divulgavam as mais estúpidas simplificações sobre os efeitos das vacinas, numa campanha louca contrária à única defesa que havia. Mas ninguém virou jacaré. Já na República, alguns viraram jumentos.
Rio de Janeiro quase acabou.
Mas só pra contrariar, virou Cidade Maravilhosa.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, andou paquerando ratazanas.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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