Outro dia o Congresso estava em guerra. O governo escolheu o ex-secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, para dar explicações a respeito do que deveriam ter feito para combater a pandemia da Covid-19. A verdade é que não fizeram absolutamente nada.
Os senadores atacantes, embora prenhes de razão, aproveitavam a fragilidade de um coelhinho encolhido e amedrontado. Os metralhas do poder jogaram o pobre do Wajngarten no meio de uma arena com uma única arma, gaguejar. O interrogado não sabia mentir direito. Chegava a dar dó.
Mas não se precipitem, esmigalharam e jogaram de pé em pé um pobre diabo sem argumento ou talento, a autoflagelação era reluzente. Nessa confusão, até o filho Rachadinha do presidente, em um dado momento, chamou o relator da CPI, Renan Calheiros, de vagabundo, e passaram a trocar farpas vergonhosas disputando quem ficaria com o troféu. Eu daria para os dois .Foi uma sujeira só, no fundo, no fundo, todos estão sempre do mesmo lado, com raríssimas exceções.
A discussão deve ser simples: o combate à pandemia na verdade nunca começou pra valer, e isso, até onde sabe a Ciência, já foi responsável pela morte de mais de 400 mil brasileiros, por omissão, cinismo e ignorância.
Mas, devagar com o andor, que o santo é de barro.
Nem todo mundo é obrigado a seguir a Ciência, a comprovação, a lógica, a testagem, o bom senso. Muito menos priorizar a observação de fenômenos históricos e analisar seu curso na História.
Cada um elege o ídolo que mais se adapta à sua identidade, vota em alguém que represente seus próprios critérios morais e sociais.
Respeitável público eleitor, nosso imperador tem precedente na História.
Pragmático, usava todo o seu poder baseado em si mesmo e em suas imediatas deduções. Alguns espíritos estreitos e amargamente positivos o chamariam de idiota. Mas que nada, era um César. Um dia, um feiticeiro segredou-lhe que a doença que assolava a Europa, a peste, era transmitida por ratos que se multiplicavam com incrível velocidade e que iriam comer todas as suas coxas de galinha, seu alimento predileto. “O que é multiplicar?”, teria perguntado.
Nero nasceu de Agripina. E não concebia a ideia de sendo ele tão gordo caber na barriga da mãe. Prático, como sempre, mandou abrir-lhe o ventre. O Centrão de Roma, dizem, realizou a maior orgia das paradas em comemoração ao fato histórico.
Quando os ratos, às toneladas, se multiplicaram mais e mais, o gênio se exaltou:
- Toquem fogo em Roma!
Em seguida, pegou a harpa e começou a tocar. (Alguns escravos capturados no Egito eram obrigados a ouvir. Outros preferiam a forca à audição).
Até hoje não se sabe ao certo onde foram parar os bichinhos. Há teóricos que consideram a hipótese de terem sido embarcados nos navios negreiros, passando-se por sambistas. Ao chegarem ao Brasil, não se sabe por qual rota, deram de cara com o movimento do sanitarista Oswaldo Cruz.
A atual pandemia da Covid-19 é uma boa hora para lembrarmos e refletirmos sobre a saúde pública brasileira. A História sempre nos traz lições importantes. Um desses momentos foi quando ocorreram no Rio de Janeiro epidemias de febre amarela, peste bubônica e varíola. Foi nessa época que o então jovem médico Oswaldo Cruz se destacou, tendo um papel decisivo para a erradicação das três doenças. (Fez falta em Roma).
Claro, alguns mandatários – aqui – divulgavam as mais estúpidas simplificações sobre os efeitos das vacinas, numa campanha louca contrária à única defesa que havia. Mas ninguém virou jacaré. Já na República, alguns viraram jumentos.
O Rio de Janeiro quase acabou.
Mas só pra contrariar, virou Cidade Maravilhosa.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, andou paquerando ratazanas.