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Rafael Medeiros

Artigo de Opinião

É estrategista político e especialista em marketing político e mobilização digital, com atuação em campanhas eleitorais e mandatos no Brasil.
Rafael Medeiros

O movimento LGBT precisa voltar a falar de realidade

Quando o movimento perde o foco dessas questões, corre o risco de se tornar mais conhecido por suas disputas internas e externas do que por sua capacidade de transformar realidades
Rafael Medeiros
É estrategista político e especialista em marketing político e mobilização digital, com atuação em campanhas eleitorais e mandatos no Brasil.

Publicado em 09 de Junho de 2026 às 10:00

Publicado em 

09 jun 2026 às 10:00

Como homem gay, tenho a sensação de que parte do movimento LGBT brasileiro perdeu a capacidade de fazer autocrítica. Durante décadas, a luta da comunidade esteve concentrada em pautas concretas: combater a violência, garantir respeito, conquistar direitos civis e permitir que milhões de pessoas vivessem sem medo. 


Essa agenda produziu resultados importantes. O reconhecimento das uniões homoafetivas, a ampliação da proteção jurídica contra discriminação e o aumento da representatividade social são conquistas que não podem ser ignoradas. 


No entanto, a impressão que tenho hoje é que uma parcela significativa do ativismo se afastou dos problemas centrais da comunidade e passou a dedicar uma quantidade desproporcional de energia a debates que geram conflito permanente, mas poucos avanços concretos.

A Parada do Orgulho LGBT+ celebra 30 anos de visibilidade e mobilização com o tema "A Rua Convoca, a Urna Confirma", durante desfile na Avenida Paulista, na região centro-sul da capital paulista, na tarde deste domingo (07)
A Parada do Orgulho LGBT+ celebra 30 anos de visibilidade e mobilização na Avenida Paulista Felipe Marques/Zimel Press/Folhapress

A Parada LGBT de São Paulo simboliza esse dilema. Ela continua sendo um evento de enorme relevância cultural e política, mas também revela uma contradição que precisa ser discutida. O Brasil segue sendo apontado por levantamentos internacionais como o país com maior número de assassinatos de pessoas trans no mundo. A empregabilidade da população trans continua sendo um desafio. Muitos jovens LGBT ainda enfrentam rejeição familiar, evasão escolar e dificuldades de acesso à saúde mental. Apesar disso, o debate público frequentemente parece mais preocupado em alimentar disputas ideológicas do que em construir soluções para esses problemas.


Minha crítica não é à celebração da diversidade. Celebrações têm seu papel e a visibilidade conquistada pela comunidade foi importante para reduzir preconceitos. O problema surge quando a visibilidade passa a ser confundida com transformação social. 


Um movimento social não pode medir seu sucesso apenas pelo tamanho de seus eventos, pela quantidade de seguidores de seus influenciadores ou pelo alcance de suas campanhas publicitárias. Ele precisa ser capaz de produzir resultados concretos para as pessoas que mais precisam.


Nesse contexto, acredito que algumas discussões poderiam ser conduzidas de maneira muito mais pragmática. O debate sobre atletas trans, por exemplo, tornou-se uma guerra cultural permanente. 


Em vez de transformar o tema em um confronto infinito entre grupos que não dialogam, defendo que o movimento tenha coragem de discutir a criação de ligas esportivas trans nacionais e internacionais, reconhecidas por federações e organismos esportivos. Essa proposta não deve ser vista como exclusão, mas como uma tentativa de construir uma solução institucional capaz de garantir competição, visibilidade, investimento e reconhecimento esportivo. O objetivo deveria ser ampliar oportunidades, e não alimentar conflitos que parecem não ter fim.


Da mesma forma, acredito que a questão dos banheiros poderia ser tratada com mais objetividade. Em vez de transformar cada situação em uma disputa ideológica nacional, deveríamos discutir modelos de infraestrutura que garantam segurança, privacidade e dignidade para todos. Onde houver demanda e viabilidade, banheiros individuais, neutros ou específicos para pessoas trans podem representar uma solução prática para um problema que há anos monopoliza debates sem produzir consenso.


Outro aspecto que considero preocupante é a crescente dependência do movimento em relação a influenciadores digitais. As redes sociais se tornaram ferramentas importantes de mobilização, mas também criaram uma lógica em que visibilidade e engajamento passaram a valer mais do que organização política. 


Muitas figuras públicas aparecem durante o Mês do Orgulho, participam de campanhas e produzem conteúdo, mas raramente são cobradas por resultados concretos. O ativismo não pode se resumir a um calendário de datas comemorativas. Direitos são conquistados por meio de organização, pressão institucional, participação política e construção de alianças sociais duradouras.

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Acredito que a comunidade LGBT precisa voltar a discutir prioridades. O combate à violência, a empregabilidade da população trans, a saúde mental, o acolhimento de jovens expulsos de casa, o envelhecimento da população LGBT e a garantia de acesso a serviços públicos deveriam ocupar o centro do debate. 


Essas pautas têm impacto direto na vida das pessoas e são capazes de gerar avanços concretos. Quando o movimento perde o foco dessas questões, corre o risco de se tornar mais conhecido por suas disputas internas e externas do que por sua capacidade de transformar realidades.


Minha preocupação não é com a existência do movimento LGBT, mas com sua eficácia. Nenhuma conquista social é permanente. Direitos dependem de apoio social, legitimidade e capacidade de convencimento. 


Se a comunidade quiser continuar avançando, precisará recuperar a capacidade de dialogar com a sociedade, reconhecer seus próprios erros e concentrar energia naquilo que realmente melhora a vida das pessoas. 


O futuro da luta LGBT não será definido pela próxima polêmica nas redes sociais. Será definido pela capacidade de apresentar soluções concretas para problemas concretos.

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