Talvez esteja me aproveitando de ser um escritor mais ou menos, para contar minhas memórias, no mínimo as que explodem no peito. Essa profissão de psicanalista à qual me abraço me dá tanto prazer e gana quanto a de jornalista. São, no fundo, a mesma coisa, quem diria.
Esse pandemônio que nos encurrala ordena uma nítida obrigação: a devolução do prazer roubado por um vírus. A tarefa imposta é a salvação dessa vida, que sequer tem vida, e ainda por cima nos ameaça de morte. Odeio essa figura. É falsa a ideia de que estamos todos prisioneiros de uma imbatível ameaça: um ser mais inteligente que nós e que não pede licença para usar a sua vida em causa própria.
Daí, instaura-se na Terra um mar de morte nunca dantes navegado. Pouquíssimos países que por uma ou outra razão – defendem-se do inimigo fronteiriço – organizam-se e tornam-se mais resistentes. Israel, o melhor exemplo, com a cautela concentrada desde a luta contra o extermínio nazista, está colhendo pela sua disciplina e competência política os resultados.
Passo os olhos na minha própria organização profissional e afetiva.
Tenho a impressão que caminho nessas escritas para reportar histórias de meus sentimentos e profissão. Não abro mão da minha relação com a estética, que segundo o gênio analista de Henrique Honigsztejn, é a derradeira das metáforas. A função da sessão analítica é trazer para uma relação a dois, em uma insólita bíblia, nada mais, nada menos, que os mundos: o interno, o externo e o vir a ser.
Tenho até hoje, passados mais de 14 anos, uma especial inveja de Henrique e de muitas pessoas brilhantes. Não deixa de ser uma forma de elogio, invejar. Até um psicopata com extrema habilidade pode ser genial e causar inveja.
Voltemos para um certo consultório em Copacabana onde estava meu destino, o consultório de Honigsztejn. Eu chegava, deitava no divã. Ficava de olho fixo em seus livros, principalmente em alemão. Inveja… bateu inveja. Eu não falo alemão.
Referência em psicanálise e ainda por cima formado na língua do mestre Freud. Menos Dr. Henrique, menos. Uma vez, diante das minhas emocionantes narrações, achei que ele havia cochilado. Dá uma raiva danada, seja o que for a realidade. O espaço em questão pertence à fantasia.
Ele me atendia enfiado em uma poltrona. Deu vontade de perguntar se havia dormido enquanto eu arrancava minhas dores da alma, mas tive medo da possível interpretação. Passou-se.
Muito tempo depois eu atendi uma senhora, cliente adorável e de fino trato. Apesar da história da consulta sempre interessante que trazia, dei uma cochilada. Ela ficava deitada no divã do meu consultório, de costas para mim e minha poltrona.
Ela me despertou do sono com certa convicção, digamos, já que não era de deixar nada pra lá.
- Paulo, você estava dormindo?
- Estava... – respondi, não sem antes haver pensado, mas não fiz, em colocar tecnicamente a culpa nela, usufruindo de uma interpretação que coubesse na forma, ou coisa assim.
- Que bom, pensei que você tinha morrido - desabafou. Fiquei em silêncio, até porque não tinha nada mais pra dizer sobre isso.
Feita a catarse, recomeçamos, e trabalhamos por alguns anos.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, dorme sempre.