As palavras e frases que escrevo são sempre as mesmas, mas nunca as minhas explicações, muito menos, as opiniões. Faz-se o que quer com o dizer. O povo da alta instância legislativa, por exemplo, mostra sempre o embaralhado que lhes interessa em um jogo de cena circense, especialmente quanto ao significado. Seria cômico se não fosse trágico. O disse - não disse - explode em forma de estranho fenômeno, espalhando estilhaços de coisa nenhuma.
Os discursos, então, acabam não chegando a lugar nenhum. Pelo menos nesta galáxia.
Um pouco de história.
O próprio filho de Deus, quando vinha na função de humano, tomava precauções ao lidar com o, por assim dizer, semelhante. Não sei se foi na Bíblia do Caos do Millôr Fernandes, ou nas histórias de Dona Terezinha, no cursinho para a Primeira Comunhão, o que aconteceu.
Certa vez me veio com esta história:
Pastoreava Jesus no alto de uma canoa no Rio Jordão, afinal Jesus é Jesus, treinando os aspirantes a apóstolos a exercitar a fé. O exercício consistia em concentrar-se em força íntima e convicção, para em seguida andar sobre o rio e ir até a margem sem se afogar, claro. E assim foi encaminhando um por um.
Era simples: fechar os olhos, concentrar toda a fé no Pai e caminhar sobre as águas. E assim foram todos. Minto! Thomé, famoso por espalhar boatos, saía negando os milagres celestes, de modo que o Cristo já estava uma vara.
Nesse dia, deixou Thomé por último. Este orou, concentrou, respirou e mergulhou contra a vontade. Não que não tivesse recebido ajuda: “Tende fé, Thomé, vai de novo”. E foram mais de dez afogamentos seguidos, mesmo Thomé caprichando na fé.
Thomé havia se transformado no maior fofoqueiro da Galileia.
Na décima tentativa, o futuro santo iria diretamente para o céu, para deixar de ser fofoqueiro. Quando o filho de Deus preparava-se para ministrar a derradeira instrução que levaria Thomé definitivamente aos céus, notou que José havia voltado para a canoa, sussurrando ao seu ouvido: Senhor, deixa de sacanagem, ensina logo o caminho das pedras pra ele passar também. E foi feito mais um milagre.
Thomé não entendia nada da lei, por mais rebuscada que fosse.
A senhora aí, entende o que dizem os processos, retrocessos, discursos e as frases em latim nas missas. E sobre Derivadas e Cálculo Estequiométrico do curso de Engenharia? Os comentários do Casagrande (Walter)? Como são calculados os preços da gasolina e do óleo? Os diferentes preços sempre em elevação dos remédios?
Ninguém fala nisso. Ninguém controla ou passa revista nas prateleiras de venda das farmácias. Isso certamente não é culpa do velho e nem do novo coronavírus. Esse “corona” é antigo, da Idade da Pedra.
Nós realizamos milagres todos os dias.
Respeitável público, o mundo mudou. O mundo interno da gente que precisa do outro para amar, o outro próximo. Não se pode mais compartilhar, que é a coisa mais deliciosa da vida. Vou contando uma a uma as faltas que sinto.
Cadê Catita, que nos batucava o coração? E Honório Poly, dedicado aos amigos e aos sons e tantos outros? Parece que estão saindo um por um, em fila, toda vez que a gente lembra. Milson, Paulo Torre, Amylton, Maranhão. Outro dia contei: um boteco inteirinho foi embora, não precisava. Camata, Marien, Edgar dos Anjos, Zé Costa, Dodora, Vitor Santos Neves ...
A sensação que dá na gente é como se nosso povo estivesse se dispersando, mesmo que não se conhecessem formalmente.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, esconde a cabeça debaixo do sofá.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta