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Lembranças

Fazer jornalismo é estar distraído, ou seja, noticiar sem tendências

Como um médico, com um certo futuro pela frente, se mete a jornalista ao mesmo tempo que envereda pela psicanálise, psiquiatria e outras milongas mais?

Publicado em 13 de Abril de 2021 às 02:00

Públicado em 

13 abr 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Jornalista durante apuração
No intuito de organizar minhas memórias a respeito do tema, e demais pensamentos, tentei aproximar-me sob a forma de folhetins, como num resumo Crédito: Freepik
“Prestenção”, para usar a língua mineira e à maneira da minha querida Talita Vilela, naveguei com ela muitas milhas à cata de uma Medicina Comunitária para dividir com o povaréu. Fizemos algumas coisinhas no ramo. Mas nem fez cosquinhas no sistema reacionário em que vivemos, independentemente do presidente de plantão.
O “estar distraído” é noticiar sem tendências, tratando igualmente os fatos e as coisas.
Então.
Contar a história, a minha história no jornal “O Diário”, confunde-se com o desejo de não dispersar a riqueza de emoções, ideias que se deixavam imprimir no leito de um rio de ideologia e ética e trazer isso para a Academia. Ufa!
Esquecer “O Diário” e suas coisas, é esquecer o jornalismo no Espírito Santo.
A bem da verdade, estou plagiando a mim mesmo, especialmente o meu trabalho de conclusão do curso de especialização - “Comunicação e Jornalismo” - na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, em 1995.
No intuito de organizar minhas memórias a respeito do tema, e demais pensamentos, tentei aproximar-me sob a forma de folhetins, como num resumo. Tento focar na tese principal, que tem a ver academicamente com a transmissão ou o ensino do jornalismo criativo, sem esquecer, entretanto, de ilustrar os argumentos com as questões pictóricas, como o anedotário. Nada neste mundo morde e assopra como o humor.
No início dos anos 2000, estava eu com a tarefa autoimposta de fundir a Academia com um texto leve e faceiro, que tivesse a cara de “O Diário”. Não se trata, portanto, de dissertar, de uma apologia ao espontaneísmo, mas a um relato histórico que pode mostrar variantes do clássico aprender e ensinar, mesmo que o resultado desta aventura fosse, como foi, avaliado por notáveis acadêmicos de instâncias superiores e ilustres.
Como um médico, com um certo futuro pela frente, se mete a jornalista ao mesmo tempo que envereda pela psicanálise, psiquiatria e outras milongas mais?
É tudo a mesma coisa, num certo sentido.
Sentir é estar distraído, escreveu Fernando Pessoa. Assim como navegar é preciso e viver não é. O “preciso” de navegar é no sentido de exatidão e não de necessidade (até hoje acho que eu sou a única pessoa no mundo que sacou). Deixe eu achar, não se meta.
Minha saltitante memória fixa-se em meu chefe de reportagem, Pedro Maia, que me deu a mão e ofereceu maconha pela primeira vez, eu já marmanjo. Fiz o que pude, mas não consegui me habituar.
Pedro Maia me ensinou o que era notícia: “É tudo que alguém quer esconder. O resto é propaganda”, vivia repetindo. Peço perdão por não citar todos os mestres que me formaram muito antes de eu iniciar a pós em jornalismo, em vários truques do jornalismo, que atuavam em “O Diário”, em “A Gazeta” e em “A Tribuna”. Por onde andei.
Paulo Torre era o texto correto e objetivo. Cláudio Bueno Rocha (CBR), o estilo. Detestava vícios de linguagem. Ensinava, por exemplo, o CBR: “Quem volta, não retorna”, “Hospital não é nosocômio”, “Abraço não é amplexo, por outro lado é bunda e, concomitantemente, é a PQP.
Não se apavorem, na próxima terça concluo essas mal traçadas.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, está fazendo xixi nos meus rascunhos.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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