ASSINE
Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

Quando a pandemia passar, o luto coletivo irá se abater sobre todos nós

Desejo a todos os negacionistas que caiam em si o quanto antes e entendam, verdadeiramente, a grandiosidade dos números de vidas perdidas a cada dia o quanto antes

Publicado em 14/04/2021 às 02h00
Atualizado em 14/04/2021 às 02h02
Homem triste
Não haverá pessoa neste país que não tenha perdido alguém para a Covid-19 . Crédito: jcomp/Freepik

Luto vem do latim “luctus” e significa dor, mágoa, tristeza, na maioria das vezes ligada à perda de alguém querido e próximo, como um parente ou amigo. No dia em que escrevo esta coluna, muitos de nós estão enlutados, não só pela perda de familiares e amigos, mas num luto muito maior: pela morte de 355 mil pessoas no Brasil. Outros, porém, não estão enlutados, continuam negando os efeitos da pandemia e enfatizando a necessidade de seguirmos adiante, em nome da economia de mercado. Mas será que haverá um dia em que viveremos, todos, o luto coletivo necessário pela dor da perda de tantas vidas?

Normalmente, o luto é dividido em etapas pelos pesquisadores, entendendo-se que as pessoas passam por no mínimo três fases após a morte de alguém querido. A primeira delas se demonstra pelo choque da perda, a segunda vem acompanhada de uma letargia ou uma descrença no futuro, e a terceira fase pode-se dizer que se dá quando acontece uma espécie de concentração no aqui e agora, como forma de seguir adiante com a própria vida, a despeito da dor causada pela morte.

Não se pode dizer concretamente quanto tempo cada uma dessas fases dura, pois as pessoas têm e demonstram emoções de formas diferentes. Para umas, as fases podem durar anos, para outras apenas meses. Porém, um ponto importante é que o desenrolar dessas fases no tempo vem acompanhado de atos de socialização humana, algumas pessoas ficam em família, outras fazem terapia, outras saem para ver o mar e assim vão colmatando as feridas abertas causadas pela morte.

Nestes dias que estamos vivendo, em meio à pandemia da Covid-19, temos o problema de necessitarmos do afastamento social para nos manter saudáveis e preservar a vida de outras pessoas. Por isso é que, ao contrário do que aconteceria em tempos normais, o luto vai se arrastar por muito tempo, sem que possamos lidar com as perdas da mesma forma que faríamos se estivéssemos em tempos normais.

Há um ano, as pessoas que não são trabalhadores essenciais deveriam estar praticando o distanciamento social. Por esse motivo, portanto, não se encontram com amigos e familiares, não participam de eventos sociais, e não veem as pessoas que usualmente encontrariam nesses locais. Imaginemos, então, que quando a pandemia passar voltaremos aos mesmo lugares que frequentávamos antes e lá não mais encontraremos as pessoas conhecidas, simplesmente porque elas morreram.

Dentre as 355 mil e mais pessoas que irão morrer até o final desta pandemia no Brasil, certamente muitas delas fazem ou fizeram parte do círculo de convivência de muitas outras pessoas. Como numa guerra, muitos de nós não mais iremos reencontrar parentes, amigos, colegas de trabalhos, alunos, enfim, não veremos novamente aqueles rostos conhecidos cujo olhar nos tocava lá no íntimo da alma, nos trazendo uma alegria gostosa a cada reencontro.

Outro problema é que nem mesmo a chance de sentir o luto teremos tido, pois não sabíamos em muitos casos do falecimento daquela pessoa. Ao fim da pandemia, quando pudermos voltar a sair de casa normalmente, vivenciaremos de repente aquela primeira fase do luto: o choque pela morte não de uma, mas de várias pessoas, que deixaram ou deixarão de fazer parte de nossas vidas, assim, como num simples passe de mágica.

Um terceiro problema vem justamente na fase seguinte do luto, quando apesar da letargia e desânimo, começamos a nos perguntar o que poderíamos ter feito para evitar a morte daquela pessoa. Imaginem quando muitos brasileiros que agora ainda vivem o negacionismo aliado ao descaso pelas vidas perdidas até aqui, derem-se conta de que medidas eficazes de saúde pública poderiam ter sido tomadas pelo governo central a fim de evitar todas essas mortes.

Se numa guerra sempre é possível aos governantes colocarem a culpa no inimigo, no caso da pandemia de Covid-19 a narrativa do inimigo não colou quando se tentou atribuir a culpa ao vírus chinês. Sabe-se, hoje, que temos um grande culpado por todas essas mortes, de modo que seus seguidores e aliados terão que trabalhar com o luto quando a pandemia acabar.

Afinal, será preciso dar conta de entender o que aconteceu para fazer as pazes com o passado e caminhar para o futuro. Não haverá pessoa neste país que não tenha perdido alguém para a Covid-19, quer seja um colega distante ou um rosto conhecido da igreja que frequentava. Essa pessoa também terá que trabalhar o seu luto para seguir adiante consigo mesmo, teremos então uma sociedade entristecida, enlutada, enfraquecida por todos os embates negacionistas.

Que tenhamos forças, quando a pandemia passar, para lidarmos com o luto coletivo que irá se abater sobre nós todos. Em especial, desejo a todos os negacionistas que caiam em si o quanto antes e entendam, verdadeiramente, a grandiosidade dos números de vidas perdidas a cada dia o quanto antes, para que assim comecem a lidar com o luto que irá atingi-los com um furor indescritível, como acontece com os veteranos de guerra, assim que perceberem a parcela de responsabilidade que lhes cabe nisso tudo.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.