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Lembranças

História de uma juventude sem pecados no final dos anos 1960

Não me canso de contar minha pequena história com o glorioso Colégio Estadual do Espírito Santo, fundeado no Forte São João

Publicado em 06 de Abril de 2021 às 02:00

Públicado em 

06 abr 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Colégio Estadual
O Estadual dividia o curso científico segundo a vocação dos alunos Crédito: Ricardo Medeiros
Não me canso de contar minha pequena história com o glorioso Colégio Estadual do Espírito Santo, fundeado no Forte São João. Em final de 1964 – epa -,  minha família transferiu-se para Vitória. O Estadual dividia o curso científico segundo a vocação dos alunos. Científico para Engenharia, para Medicina e o Clássico, preparatórios para o temível vestibular. Fui para Medicina.
Encarávamos o elegante uniforme calça cáqui e blusa azul. A minha turma era dedicada e competente. Lembro muito bem do Paulo Pimpão, Paulo Tavares, Paulo Zero, Nildete, Rutileia, Rosa, Julinho Prattes, Paulo Tavares, Pedro Carrancho e grandíssimo elenco.
No Clássico reinavam as meninas cheias de graça: Dodora Figueiredo, Graça Ruy e Lurdinha Lordello, e outras, além do bendito fruto, meu amigo Paulo Torre. As jovens, todas lindas, miravam os cursos de Serviço Social, Artes, Filosofia, Direito, enfim, os que não apontavam para Engenharia e Medicina. Quem mais me chamou a atenção na Engenharia foi o Zé Carlos Correa. Era um empreendedor desde criança. Perdoe o relato incompleto, é o que a memória deixa.
Na época, o grêmio tinha sido fechado, era a União Atlética Ginasial do Espírito Santo (UAGES). Não por acaso, inicia-se no colégio um movimento para, como dizia Correa, soerguer a UAGES.
Ao mesmo tempo, nasce o jornal tabloide do colégio - "O Independente". Saíamos de classe em classe, até em outros colégios, onde entrávamos na maior cara de pau, para distribuir os exemplares. A linha editorial era, primeiro, reabrir o grêmio, e segundo, participar da União Estadual dos Estudantes, no Centro de Vitória. Fizemos muitas reuniões proibidas lá.
A impressão no jornal devia-se a duras batalhas depois das aulas nas empresas, repartições clamando por anúncios. Vale citar o livreiro, dono da Livraria Âncora, Nestor Cinelli, que fazia de tudo para nos ajudar.
Logo em seguida, nasceu o programa de rádio “A Voz da Uages”, sob a direção e locução de Correa, em uma das estações de Vitória. Tinha anúncio comercial e tudo. Era a fina flor do bom caráter e do e amor ao país que brotava de ambos os veículos de comunicação.
"O Independente", jornal do Colégio Estadual nos anos 1960 Crédito: Reprodução
O próximo objetivo, risonha e francamente, era reintegrar a União dos Estudantes Secundaristas do Espírito Santo (UESES), também no Centro da cidade. Essa editava um jornalzinho que saía encartado em “O Diário”, o União. Se bem me lembro só saiu um número ou dois.
Um belo dia, o jornalzinho estava pronto para rodar, já nas ramas em frente às impressoras – Gilda e Maura -,  quando chegou a sempre presente repressão e empastelou o jornal. Era o climão do AI-5 bafejando nas inteligências do país.
Os estudantes do Estadual eram muitos meninos e meninas da Juventude Estudantil Católica (JEC), onde aprendemos a ver, julgar e agir dentro das palavras do Cristo.
Todos os dias na calçada da Catedral, conversávamos e entrávamos para uma boa comungada e íamos refletir.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, está pensando: ama com orgulho a terra que nasceste, jamais verás um país como este.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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