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Carnaval

Uma saudade atual

Carnaval é tempo de revelar – talentos e mestres na arte de exaltar adjetivos, defeitos, mimos e desejos.... Como não? Hora e meia num bloco de Carnaval vale mais do que seis meses de terapia. Pode crer

Publicado em 14 de Fevereiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

14 fev 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Bloco Regional da Nair animou os foliões neste domingo de Carnaval
Tem lá coisa melhor que se fantasiar para um bloco, para um um baile, uma festa, um desfile de Carnaval? Crédito: Ricardo Medeiros
Certa vez ouvi dizer que pular o Carnaval é uma espécie de dever nacional.
Um serviço prestado a comunidade interplanetária de seres, a fim de elevar o nível do campo energético mundial. Como se o somatório de toda alegria manifestada pelo povo brasileiro nestes sete dias de festa (sete sim, sejamos honestos), representasse um salto quântico, uma subida no degrau da energia do planeta.
Bem, não sei você, mas eu levo a sério: me apresento ao sacrifício do Carnaval de corpo inteiro!
Ah, e se não por essa, por outra: tem lá coisa melhor que se fantasiar para um bloco, para um um baile, uma festa, um desfile de Carnaval? Cobrir-se de purpurina, vestir peruca, máscara, e a fome de viver pra valer (fantasiado de um "outro", inventado ser).
Carnaval é tempo de revelar – talentos e mestres na arte de exaltar adjetivos, defeitos, mimos e desejos.... Como não? Hora e meia num bloco de Carnaval vale mais do que seis meses de terapia. Pode crer.
Solteiro, enrolado, casado, importa não: o cortejo é certo, o flerte é de flecha, e os gracejos, à beça! Massagem tântrica no ego. E tome abraço suado, cerveja morna goela abaixo, beijo roubado – tudo vale! Na boa, na brinca, administrando a malícia, vale mesmo.
Porque a medida da farra é a dose, no canto do olho, na nesga da boca, no refrão do samba, no calcanhar do pé, no cetro do rei da festa! Ele que atende pelo nome: Respeito. Esse com maiúsculo mesmo, porque a corrente energética tem que ser do Ile aiê, do amor e da alegria de brincar, sem nunca perdê-lo. 
"Mamãe vai fazer, papai vai fazer, só falta você... Dan-dan-dan-dançando!". "Haja amor!" "Ô, ô, ô, ô, meu bem, meu bem, me dá?". "Dona Celestina, me dá água pra beber?". "O tambor tá batendo é pra valer, é na palma da mão que eu quero ver!". "Porque eu moro numa cidade cheia de ritmos, que sobe, que desce ao som da maré...". "Então, pra ficar tudo perfeito, vem viver essa paixão, uma andorinha só não faz verão, voa, voa!".
Voa, voa, transborda... É lindo se deixar contagiar, permitir-se fantasiar e sair de casa brincar. Valei-me! Festa de Carnaval é coisa de se esperar um ano inteiro. Vamos combinar? Mesmo porque cura tudo: de mau humor à TPM; de culpa à aborrecimento; de boleto vencido à dor de cotovelo.
Ok, também dá unha encravada, boqueira, calo, ressaca, saudade, coração partido e até barriga? Dá! Ainda assim, incentivo, porque festejar é santo remédio pra todo o resto. Quiçá, pro mundo inteiro.
Na pista, na rua, no salão de festas, na passarela do samba, vira-vira: insegurança vira fumaça, suor vira tempero, cevada vira água, dentista vira mágico, dona de casa vira cigana, surfista vira tubarão, boi vira piranha... Ai, que o calor é sem jeito e até a chuva é bem vinda. Ai, que todo beijo tem uma purpurina no meio da língua. Ai, que embolados serão os cabelos – os da Maria e os do Zezé – "será que ele é?" – ninguém duvida porque ninguém quer saber!
"Ó Pai do Céu, na Terra é Carnaval!" – Honremos!
Quem liga para o que vão dizer?

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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