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É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

A melhor festa

Fez a melhor maquiagem que podia. Usou aquele batom que nunca, aquela sombra rara e o perfume mais exótico que tinha. Vestiu cada peça da alegoria: tornozeleiras, saia, bustiê, braceletes e a cabeça emplumada

Publicado em 07/02/2021 às 02h00
MUG entra na avenida com o enredo
Não falhava, a cada vez que o refrão do samba tocava, seu corpo inteiro arrepiava... “Vai, vai, voa!”. Crédito: Fernando Madeira

Tudo que ela sabia era que sua ala tinha alguma coisa a ver com uma ave rara. Mais nada. Tinha sido convencida a desfilar pela primeira vez na vida, por uma prima serelepe que só! Dessas que não perdem nem um ano na avenida. Também havia sido (repetidas vezes) informada que o ônibus com a turma daquela ala iria se concentrar num boteco tal, a partir das duas da tarde. Mas tinha certeza de que era melhor passar a tarde em casa, de resguardo – atravessar a avenida do Sambão vestida de papagaia parecia o bastante para um dia só. Marcou com antecedência um taxista conhecido do bairro para apanhá-la. “Às dezenove em ponto, seu Romualdo”.

Era um sábado de céu azul piscina e sol amarelo-alegria. Abriu as cortinas e as janelas da sala, ligou o ventilador e colocou o enredo da escola para tocar no computador– sinceramente não admitia a hipótese de não saber cantar a letra e correr risco de fazer a ala perder pontos no quesito harmonia – é, era uma cdf assumida. Trabalhava num escritório de contabilidade e morava sozinha. Quer dizer, com 3 gatos: Fera, Tigrão e Patinha. Tirava as manhãs de sábado para molhar as plantas da varanda, depois ir ao mercado e fazer as unhas. Tudo a pé, passeando pelo bairro. Almoçava tarde... Lendo e bebericando um vinho verde gelado. Assistia o dia virar noite sem compromissos, sem telefone, nem WhatsApp. Mas não naquele dia inédito em sua vida: o dia em que enfim desfilaria na Avenida.

Maria Sanz

Cronista

"Assistia o dia virar noite sem compromissos, sem telefone, nem WhatsApp. Mas não naquele dia inédito em sua vida: o dia em que enfim desfilaria na Avenida"

Ouvindo o samba enredo, andava pela casa meio que sambando, indo e voltando feito galinha sem dês. A cada vez que ia no quarto, colocava sobre a cabeça um adereço dourado com um penacho azul e verde, se olhava no espelho, sorria, abria os braços, sambava um pouquinho, depois ficava ligeiramente encabulada de si mesma e guardava a cabeça no armário. Não falhava, a cada vez que o refrão do samba tocava, seu corpo inteiro arrepiava... “Vai, vai, voa!”

Calculava que na hora H não ia dar conta. A maquiagem sucumbiria à emoção.

Não tinha fome (estranho), pelo contrário, sentia um pé de enjoo na boca do estômago. Pensou em ir ao mercado comprar... “O que mesmo?” – Não precisava de nada, há não ser que hora do desfile chegasse.

Quando caiu a tarde, tomou banho com sabonete novo e lavou os cabelos com xampu importado. Depois passou creme no rosto e outro de baunilha com coco por todo corpo. Deitou na cama, ligou o ar do quarto e fez que ia tentar tirar um cochilo. Rá! Impossível. Cada molécula de cada célula estava agitada. Um rebuliço. Até o couro cabeludo sofria arrepios. Levantou da cama, desligou o ar e abriu outra vez o armário. Lá estava: sua fantasia.

Brilhante, linda, sem fim de purpurina, lantejoula e plumas. Mais parecia uma obra de arte, uma passagem, um portal que a transportaria.

A hora era quase.

Fez a melhor maquiagem que podia. Usou aquele batom que nunca, aquela sombra rara e o perfume mais exótico que tinha. Vestiu cada peça da alegoria: tornozeleiras, saia, bustiê, braceletes e a cabeça emplumada. Havia também uma peça de encaixar no ombro, um pouco pesada, que ela achou melhor levar na mão para não correr o risco de amassar no táxi.

Assim que a viu, abrindo a porta traseira do carro, disse seu Romualdo: “nunca vi passarinha mais bonita!”

Ao que ela sorrindo respondeu: “Obrigada. Toca pro Sambão do Povo”

Tremia. Sentia a boca deserta de água. As mãos geladas. O peito dolorido de tão precisado daquela chegada.

Quando o carro freiou em definitivo, soltou aquele suspiro profundíssimo – alforria da ansiedade.

A rua lotada de pessoas igualmente coloridas num agito sem ordem alguma, vai e vem, gritaria, música alta e misturada, loucura! Pagou o taxista, agradeceu, pisou na calçada, bateu a porta, não viu o meio fio, tropeçou, espatifou-se, caiu de cara.

Sentiu o braço forte de um guerreiro romano purpurinado que perguntava “você tá bem?” Chacoalho, perda imediata de todo prumo, amizade-colorida-a-primeira-vista. E a festa ainda nem tinha começado...

(Êta festa danada!!!)

E é por essas e outras que quem experimenta logo cedo aprende essa: o Carnaval é uma festa com 360 dias de espera.

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