É o dicionário quem diz, mas também as escolhas que fazemos em tempos de escassez: essencial significa indispensável, imprescindível, aquilo de que não se pode abrir mão, o que não pode ser deixado de lado.
Acontece que, com a pandemia, o conceito deixou de ser filosófico, poético, quase metafísico, para se tornar um balizador real e nada romântico do que pode ou não pode.
Há uma disputa política em torno da palavra essencial, do conceito, da ideia. Uma polarização, como as que têm nos assolado, desembestadas, ultimamente. Uma disputa, alguém já disse, com razão, que se torna tanto mais tensa quanto mais restritivas ficam as medidas anunciadas por prefeitos e governadores para reduzir a contaminação e a sobrecarga do sistema de saúde.
A maioria quer ser essencial. Eu também queria, você não? Queria voltar a ver minha família reunida aos domingos, enterrar adequadamente os que se foram, brindar as datas felizes ao ar livre. Queria que os bares e as academias estivessem a todo vapor, que os empreendimentos de bom coração estivessem voando, que todos os boletos de todas as famílias que dependem de seu funcionamento estivessem em dia.
Cada um sabe o quanto o isolamento tem pesado, nas finanças, nos afetos, na saúde mental, na destruição de planos, sonhos e projetos suspensos. Mas, olha, não se trata de cada um de nós individualmente, mas de sobrevivermos no maior número possível. Não se trata de se tornar essencial no grito nem de uma competição sobre quem perdeu mais. Em maior ou menor escala, todos perdemos alguma coisa no último ano.
Hoje eu acrescentaria mais um item na extensa e doída lista de privações impostas pelo momento. Pandemias são também sobre como lidar com a falta de razão e responsabilidade.