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Foi secretário estadual de segurança pública e comandante geral da polícia militar. É especialista em Segurança Pública pela UFES. Neste espaço, produz reflexões sobre políticas públicas para garantir a segurança da população

Família é a principal escola de valores para crianças e adolescentes

Número de adolescentes envolvidos em crimes cresce descontroladamente e acaba revelando uma das mais graves condicionantes da violência: a desestruturação das famílias

Publicado em 26/04/2021 às 02h00
Casa e família
Moldar crianças e adolescentes para serem bons cidadãos é tarefa das respectivas famílias. Crédito: valeria_aksakova/Freepil

Em suas atividades diárias, as polícias buscam proporcionar à sociedade a tranquilidade necessária para o desenvolvimento de todas as nossas capacidades. Essas atividades policiais acabam, muitas vezes, se materializando em ações repressivas que ganham a atenção da imprensa e, consequentemente, maior destaque para o trabalho de deter os agressores da sociedade e apreender os meios com que a agridem.

Esse acompanhamento do serviço policial acaba colaborando para que, no imaginário das pessoas, as instituições policiais sejam apontadas como as únicas responsáveis pelo controle da criminalidade e, nessa ótica, como as culpadas quando há o descontrole. Porém, é importante ampliar nossa visão e analisar com maior profundidade a problemática da violência.

Essa reflexão nos permite enxergarmos que as polícias atuam sob demanda, em consequência da violência, e mais, que nossa sociedade precisa buscar entender suas condicionantes, suas causas.

Nesse caminhar, na busca por um melhor entendimento, é importante ter um olhar atento e perceber, por exemplo, que as polícias têm atuado em muitas apreensões e prisões de adolescentes e jovens, cada vez mais jovens. Parafraseando o saudoso Ulysses Guimarães: “Aí está a vossa excelência, o fato”.

O número de adolescentes envolvidos em crimes cresce descontroladamente e acaba revelando uma das mais graves condicionantes da violência: a desestruturação das famílias. Sim, a instituição família também tem um importantíssimo papel frente às estatísticas alarmantes desse público jovem envolvido em ilícitos e atos infracionais.

Pode parecer uma intromissão de minha parte enveredar por esse campo, mas aprendi com os meus pais que nada mais digno do que a sinceridade e a verdade. E foi por isso que quando exercia a função de comandante de Batalhão da PM, na cidade de Serra, durante uma abordagem a uma festa clandestina em via pública que acontecia na calada da madrugada, diante da presença de centenas de crianças e adolescentes fazendo uso de bebida alcoólica e ouvindo músicas que exaltavam a prostituição, o uso de drogas ilícitas e a violência, afirmei aos profissionais da imprensa que cobriam aquela ação policial: “Polícia não existe para tomar conta dos filhos dos outros! Onde estão os pais dessas crianças?”.

Embora seja uma afirmação à primeira vista dura, se reveste da mais pura verdade. Moldar crianças e adolescentes para serem bons cidadãos é tarefa das respectivas famílias, que por serem o primeiro contato do ser humano com o mundo exterior, são aquelas que transmitem os valores éticos e morais, principalmente pela força do exemplo. As famílias são a primeira esfera do controle social.

A prudência orienta para que os grandes problemas sejam prevenidos e não unicamente combatidos. Então, o momento exige uma profunda e séria reflexão sobre o comportamento de nossos jovens, a construção de sua identidade e a sua formação como cidadãos éticos.

Os pais não podem somente transferir para a escola, para a igreja e para o Estado a responsabilidade de educar seus filhos, pois ao apresentar o significado do respeito, da honestidade e do amor ao próximo, contribuem para uma sociedade melhor. Evidente que outros atores, dentre eles a escola e a igreja, podem realmente ser parceiros da família nesse “processo de cunhar e forjar”, mas nunca de substituir.

Creio não haver dúvidas de que a família é a principal responsável pela formação de valores em nossas crianças e adolescentes, como também não há dúvidas de que comportamentos agressivos e desprezo por princípios básicos da vida em sociedade podem refletir, ao menos em parte, algum tipo de experiência familiar. É claro que ao adentrar com o olhar na problemática da violência nos depararemos com outras condicionantes da violência, mas é preciso colocar o dedo nessa ferida aberta.

É preciso que o poder público e a sociedade civil organizada estejam atentos sobre a importância de contribuírem para o resgate e fortalecimento da instituição família. Não existe no mundo receita melhor para uma sociedade desenvolvida.

Enfim, aos pais continua a missão dada por Deus de assistir e guiar seus filhos pelo caminho das veredas da justiça, das boas obras e da verdade. Aos filhos, a melhor escolha continua sendo ouvir a instrução de seu pai e não desprezar o ensino de sua mãe.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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