Quando esta crônica estiver sendo lida, a cerimônia da entrega do Oscar já ocorreu. Já aconteceram dezenas de comemorações e dezenas de reclamações de pessoas que se felicitam pelo acerto ou reclamam das escolhas vencedoras, porque o gosto de uns é o desgosto de outros neste mundo, como me disse uma vez um filósofo catador de latinhas que dormia debaixo de um viaduto.
O Oscar é a estatueta de um sujeito banhado em ouro, nu, com os braços cruzados sustentando uma espada. Se vocês se interessam por deuses do Egito, vão ver que é em tudo igual a Ptah, o deus egípcio das artes. Nada a ver com o apelido que lhe foi dado em Hollywood.
Em 1927, a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas dos EEUU teve a ideia de premiar atores, atrizes e filmes que tivessem tido o melhor desempenho junto ao público. Ou seja, o Oscar é um prêmio concebido pela indústria cinematográfica para recompensar os “melhores produtos”, assim considerados tanto em qualidade quanto em atuação no aumento do número dos consumidores.
Em seus 94 anos de vida, foi entregue a filmes que mais se adaptavam aos interesses do entretenimento da massa de espectadores. Por sua vez, com a passagem dos tempos, a massa de espectadores, também foi se adaptando a interesses políticos, sociais e econômicos.
Nestes anos do século XXI, o Oscar tende para a diversidade de filmes que se destacam por atitudes de identidade cultural e questões à flor da pele das sociedades: racismo, gênero, direitos das minorias, mudanças climáticas e tantas outras que surgem no rastro ameaçador do declínio do império do capitalismo exacerbado que se julgava capaz de organizar e manter a existência no planeta Terra.
Como diz Michel Goulart sobre os filmes atualmente premiados pelo Oscar: “o que se tem na aparência é uma grande festa dos setores explorados da sociedade”. (Note-se que ele diz “na aparência”: eu concordo).
Essas elucubrações (um tantinho filhotas de Marx) não obscurecem o entusiasmo nem o ardor com que espectadores e cinéfilos do mundo, a cada ano, aguardam e acompanham a entrega do homenzinho pelado e dourado. Para além daquela festança de roupas luxuosas, poses estudadas, personagens esdrúxulas e outras quinquilharias; para além do interesse da indústria cinematográfica e das negociações mercantis que cercam as escolhas do Oscar.
Talvez isso aconteça porque os filmes conseguem dar a ver e ouvir histórias que são fontes imortais de beleza, força, resiliência e esperança para nós, pobres mortais. Ou talvez pela eterna magia que o cinema consegue imantar.