Definitivamente, 2020 foi o ano em estivemos em perigo. Tantas mortes, tantas perdas, tantas lágrimas, tantas separações. A gente espera que 2021 seja diferente. Teima em botar fé na esperança. Mas até a esperança anda meio caída, meio sem força para se equilibrar na corda bamba do circo de horrores desta pandemia. É aí que entram pequenos acontecimentos, pequenos prazeres, pequenas doçuras que confortam o coração, dão alívio à alma.
Quero falar de “Soul”, animação de Pete Docter e Kemp Powers, lançada em dezembro no Disney +, que vi nesta semana. É a história de Joe, um pianista preto, que se sente fracassado e deseja ser reconhecido. Mas, quando está para conseguir um lugar ao sol, sofre um acidente na rua, fica em estado de coma, é transportado para fora do corpo e vai para o além, precisando encontrar seu caminho de volta com a ajuda de 22, uma alma que não quer encarnar por achar que será entediante viver no planeta.
Dito assim pode parecer um tanto banal. Porém a sinopse não dá conta do encantamento que “Soul” produz em nossas mentes cansadas pelo isolamento e obliteradas pelas inquietações.
O título por si só é uma deliciosa duplicidade. “Soul” tanto é alma em inglês, quanto gênero musical. No filme, a música do jazz se junta ao lance estético de um espetáculo de formas e cores mixadas ao humor, à inteligência dos diálogos e à iluminação. Mas o que causa uma espécie de arrebatamento é a delicadeza, é a leveza com que são tratadas questões existenciais que atordoam a humanidade.
Afinal, quem nunca se fez a pergunta: qual é o sentido da vida? Na tentativa de obter a resposta, as pessoas se enredam na obsessão de que dar sentido à vida é ter que cumprir um propósito: enriquecer, adquirir bens materiais, permanecer sempre jovem, ser reconhecido, obter sucesso em uma profissão, seja lá o que for. Ter um propósito faz parte dos conceitos que os humanos tomam como o caminho que vai dar na felicidade. Como isso nunca acontece, tudo acaba em uma sensação de vazio.
Na contramão desse sentimento enganoso, o filme mostra que a obsessão por alcançar um propósito faz perder o encanto das coisas miúdas que se encontram a cada momento no cotidiano. São coisinhas simples de que a alma 22 passa a gostar, ensinando a Joe o valor daquilo que realmente importa no curso da sua existência na Terra: a descoberta do sabor de um pedaço de pizza, uma música escutada na rua, uma folha de árvore que cai.
Assim, “Soul” é um filme mais que apropriado para começar este ano. É uma “jazzeria” curativa para a sensibilidade machucada da gente. É um poema ao entendimento de que viver é que é o sentido da vida.