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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

"Soul": animação do Disney+ é o melhor filme de 2020

Com lançamento na plataforma de streaming da Disney, "Soul" é o filme mais adulto da Pixar e uma bela história sobre viver a vida em sua totalidade

Vitória
Publicado em 25/12/2020 às 01h00
Atualizado em 25/12/2020 às 01h00
Filme
Filme "Soul", da Pixar, disponível no Disney+. Crédito: Disney/Divulgação

O que torna os filmes da Pixar tão especiais? A maioria deles traz tramas simples, mas cheias de coração e afeto, são filmes que vão além das animações que alegram as crianças e que os pais toleram numa boa, muito pelo contrário, são filmes aos quais os pais arrastam os filhos. Filmes como “Monstros S.A” (2001), “Up - Altas Aventuras” (2009), “Toy Story 3” (2010), “Divertida Mente” (2015) marcaram a vida de muita gente e arrancaram lágrimas de muito adulto que nem tentava escondê-las. Esse é o encanto da Pixar.

Talvez seja por isso, pela falta desse encanto, que “Dois Irmãos - Uma Jornada Fantástica”, um dos últimos filmes a chegar aos cinemas antes da pandemia, seja apenas razoável. É uma aventura divertida, mas nada além disso. A verdade é que o grande lançamento da Pixar para 2020 não era a aventura familiar de Don Scanlon, mas sim “Soul”, de Pete Docter (“Monstros S.A” e “Divertida Mente”), que chega nesta sexta (25) ao Disney+ após ter a estreia nos cinemas adiada algumas vezes.

“Soul” é o primeiro filme da Pixar feito para o público adulto - as crianças vão se divertir, há bastante humor para todas as idades, mas o foco do roteiro de Docter e Kemp Powers é mais maduro. O filme acompanha Joe (Jamie Foxx), um professor de música de quarenta e tantos anos que acredita ter deixado passar a chance de viver seu grande sonho: tocar jazz profissionalmente.

Quando ele consegue uma oportunidade, faz uma audição brilhante, mas cai em um bueiro e acaba no Além. Sua alma, porém, não está pronta para fazer a passagem. Joe, então, foge do Além e acaba no Pré-vida, um local que prepara as almas para a vida na Terra. Joe se disfarça de mentor da cínica alma 22 (Tina Fey) e faz um acordo com ela, se ele ajudá-la a ver um sentido em viver, a encontrar sua “faísca de vida”, ela dará o passe de vida na Terra para ele retornar a seu corpo enquanto ela permanecerá de boa no Além.

Filme
Filme "Soul", da Pixar, disponível no Disney+. Crédito: Disney/Divulgação

“Soul” é literalmente um encontro de duas almas distintas que acabam aprendendo com suas diferenças, é um filme sobre o sentido da vida, mas que não mergulha em religião alguma. O pós-vida é meio uma mistura de “The Good Place” com uma startup operando um coworking, um lugar onde tudo funciona ao mesmo tempo.

Apesar de o Além ter uma construção interessante, “Soul” funciona melhor quando está entre os vivos. É bonita a maneira como o filme de Pete Docter destaca o poder da arte e da cultura na transformação de uma pessoa e na formação de seu caráter. Em “Soul”, a personalidade é aleatoriamente escolhida pelos conselheiros do Além, mas o resultado final depende de como a pessoa age e o que consome em vida.

A não tradução do título para o português, inclusive, ajuda na compreensão do texto - “Soul” (“Alma”, em inglês) pode significar tanto as almas quanto a música, ambas transformadoras. A trilha sonora é impecável, com canções de jazz originais de Jon Batiste e trilha minimalista de Trent Reznor e Atticus Ross.

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Filme "Soul", da Pixar, disponível no Disney+. Crédito: Disney/Divulgação

“Soul” é sobre música, é sobre vida, mas é mais ainda sobre sonhos: qual o sentido de se viver sem tê-los, sem correr atrás deles? Nesse ponto, o filme se assemelha muito a “Up - Altas Aventuras”, ainda que não tenha a mesma carga dramática. O fato de talvez não ter uma cena como o final de “Toy Story 3” ou a despedida de Bing Bong em “Divertida Mente” não faz de “Soul” um filme menor, mas sim um filme mais maduro. A emoção talvez não funcione tão bem no público mais jovem, mas pode atropelar como um caminhão o público acima dos 35. Se o sonho não é alcançado, a vida é um fracasso?

Mesmo sendo um filme adulto e o primeiro filme da Pixar com um protagonista negro, “Soul” não é tão diferente assim de outros filmes do estúdio. O clima de parceria, de camaradagem está presente como em tantos outros, mas sua execução é mais ousada, menos infantil. Tecnicamente, o filme de Pete Docter e Kemp Powers é perfeito, criando uma Nova York realista, viva, cheia de calor humano e música, muita música, enquanto o Além é mais frio, mas não menos interessante.

“Soul”, me arrisco a dizer, pode não ser tão divertido ou ter a carga emocional de seus pares, mas isso tampouco faz falta - a Pixar foge um pouco de sua fórmula para entregar um filme cheio de coração e, com o perdão do trocadilho, alma; um filme sobre aproveitar a vida se prendendo ao que vem e não ao que ficou para trás em cada escolha. Em um momento em que (ainda) deveríamos estar isolados em casa, “Soul” pode ser um tanto agridoce, mas, ironicamente, funciona para mostrar que esses momentos também fazem parte da bela narrativa que protagonizamos.

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