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É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

Filme "Lindinhas" e os debates que provoca: é preciso tanta polêmica?

A produção fala sobre mulheres. O universo feminino tem tantas e tão tortuosas veredas culturais, sociais, políticas e religiosas que não dá para os fracos ou os apressados de plantão tergiversarem sobre ele

Publicado em 29/09/2020 às 05h00
Cena do filme
Cena do filme "Lindinhas", produção cercada de polêmicas. Crédito: Divulgação/Netflix

"Lindinhas" (Mignonnes) é um desses filmes que já nascem predestinados a polêmicas. Apesar de ter sido elogiado pela crítica especializada, passou pelos nove círculos do inferno, não aqueles do poeta Dante, mas de pessoas e grupos que exigiam seu cancelamento sob a pecha de “incentivo à pedofilia”.

Foram posts, campanhas e outras “cositas” de deixar no chinelo os tribunais da inquisição. E só não rolou porque a plataforma streaming Netflix o manteve e vozes sensatas se manifestaram a seu favor e de sua realizadora, a cineasta franco-senegalesa Maïmouna Doucouré.

E o que tem "Lindinhas" de tão estressante? Em primeiro lugar, fala sobre mulheres. Por si só é um tema desafiador. O universo feminino tem tantas e tão tortuosas veredas culturais, sociais, políticas e religiosas que não dá para os fracos ou os apressados de plantão tergiversarem sobre ele. Em segundo lugar, apresenta os dilemas da pré-adolescência, uma fase da vida em que as meninas estão à mercê de tentativas da construção de identidade e de irrupção da sexualidade.

A personagem principal, Amy, tem 11 anos e passa por traumas de restrições econômicas, submissão aos preceitos da religião, tentações do uso da tecnologia, vontade de ser aceita pelas companheiras de escola e tantas outras experiências comuns a tantas garotas. A menina descobre o sofrimento de sua mãe que tem de aceitar o casamento do marido com uma segunda esposa mais nova, se rebela contra os hábitos conservadores de uma velha tia e tenta criar uma vida que seja diferente da vida das duas, ambas submetidas às regras mulçumanas de comportamento.

Para isso, tem de descobrir sozinha as consequências de atitudes, ações, poses e roupas de apelo sexual, que assume por ingenuidade. Aí incluídos os lances do concurso em que se junta a garotas que formam um grupo de dança. São coisas sobre as quais nunca foi instruída, pois são tabus na sua comunidade de imigrantes africanos.

O filme vai de planos abertos dos ambientes em que Amy circula a planos fechados sobre as situações em que busca a liberdade da transformação. Mas o entrelaçamento da vida dessas três mulheres - a tia, a mãe e a menina - talvez seja o verdadeiro eixo que move a narrativa, pois mexe com os fantasmas de nossa cultura acostumada à hipocrisia e à desinformação quando se trata de assuntos femininos.

Afinal, parece mais cômodo cancelar um filme do que falar abertamente sobre essas questões e educar as meninas para que tomem consciência de si, de seu corpo, dos alcances de sua liberdade na busca de uma existência plena, proveitosa e feliz.

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