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É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

Como está a vida on-line neste ano do pesadelo pandêmico

As redes sociais passaram a ser refúgio de sociabilidades. O que não mudou foi a incongruência dos sentimentos humanos. As manifestações de sensibilidade, inteligência e humor continuam a compartilhar espaço com lances de amargura, hipocrisia e rancor

Publicado em 18/08/2020 às 05h00
Atualizado em 18/08/2020 às 05h00
Mulher de máscara facial em casa olhando o celular
Mulher de máscara em casa olhando o celular: nossa vida passando pela tela do celular. Crédito: Freepik

No ano de 2015, que parece já tão distante, Umberto Eco afirmou: o “drama da internet” é que as redes sociais dão o “direito à palavra” a uma "legião de imbecis". A frase causou prós e contra. O escritor foi acusado de arrogância e elitismo, por uns; aclamado como defensor da responsabilidade e da ética sobre o que se fala, por outros.

Em 2020, neste ano do pesadelo pandêmico, a cena se modificou. A internet tornou-se mater et magistra de fenômenos virtuais. As redes sociais passaram a ser refúgio de sociabilidades. O que não mudou foi a incongruência dos sentimentos humanos. As manifestações de sensibilidade, inteligência, humor e leveza, continuam a compartilhar espaço com lances de amargura, hipocrisia e rancor.

Quem ainda não foi vítima de uma falácia argumentum ad hominem (argumento contra a pessoa) nas redes sociais? Funciona assim: alguém escreve um comentário maldoso em uma postagem feita por outra pessoa, mas ataca a autora ou o autor da mensagem, e não o conteúdo do que foi postado. É um estratagema para extravasar lampejos de inveja, desejos de fomentar discórdia ou qualquer outra coisa menos edificante.

Imagino o que o autor de “O nome da Rosa” diria sobre os acontecimentos de agora. Como as lives, que são as queridinhas do momento. Tem live de tudo: culinária, carpintaria, dança, escrita criativa, política, meditação, jardinagem, pilates, bordados, ikebana, idiomas, ukulele, missa, sessão espírita ou qualquer outra coisa que der na telha de qualquer criatura.

Por vezes, são feitas por pessoas que não têm nada a apresentar, a não ser tentativas de aparecer ou de vender produtos e serviços caseiros. O lado bom é quando as lives se transformam em ferramentas úteis a profissionais que produzem conteúdos culturais, industriais ou artísticos.

Porém, como o cérebro não tem suporte para tanta informação, a banda podre fica mesmo é com os receptores expostos a uma tal overdose, aguentando ao mesmo tempo o peso do isolamento social, da exposição às telas, da banalização e do excesso de oferta das apresentações. O resultado é que cada vez mais acontece com os seres humanos o mesmo que ocorre com os bichos que são exibidos em um circo: adoecem de ansiedade, cansaço mental e exaustão.

E assim caminha a vida online da humanidade, meu caro Umberto. O “novo normal” seria a proposta de um outro padrão capaz de garantir nossa sobrevivência. Mas as mudanças talvez não aconteçam enquanto não soubermos transformar a estrutura de nossa própria existência off-line no cenário do mundo.

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