Respeito o lobo-guará. Ele desfila a elegância do lobo e o charme da raposa. Porém, é mesmo um chrysocyum brachyurus, ou seja, um guará. Vive no cerrado. Em Minas, depois de comer o jantar de carnes e frutas que os padres do santuário do Caraça, toda tardinha, dispõem em um lugar especial da varanda, o bicho faz aquela paradinha digna da Gisele Bündchen, exibe a pelagem cor de ouro marrom, as orelhas pontudas, as patas finas de extremidades negras. E, quando se vai mata adentro, mergulhando nas trevas da noite, os turistas suspiram extasiados.
O lobo-guará é um animal com vulnerabilidade a ser extinto. Só isso basta para mexer com a gente. Garante adesão a sua imagem estampada na cédula de R$ 200, causadora de um tsunami de opiniões prós e contras. Acompanhei os memes, as discussões, os abaixo-assinados que lotaram a internet. Porém, deixo isso para os entendidos. O que quero é falar da simpatia que senti ao ver a proposta de que, em vez do lobo-guará, o cãozinho caramelo fosse o eleito para a figuração.
O que pode existir em um cãozinho caramelo que me justifique? Ora, o cãozinho caramelo é a síntese daquilo que se chama cachorro vira-latas. E o vira-latas é admirável em sua persistência de sobreviver. Quem já não viu um deles vagando pelas ruas, desviando dos carros, fugindo das carrocinhas de recolhimento, dormindo ao relento, revirando as latas de lixo?
Uma vez, Nelson Rodrigues disse que nós, no Brasil, temos “complexo de vira-latas”. Para o escritor, isso traduziria nossa mania de inferioridade diante de outros países. Talvez porque fomos colonizados na crença de que o que vem de fora é sempre melhor do que criamos, produzimos e pensamos. Esse é um modelo mental difícil de ser rebentado. Difícil, mas não impossível.
Como nos mostram os cães caramelos que andam por aí à solta e sabem bem organizar suas vidas sem depender de donos que os mimem, cuidem e alimentem, como fazem cachorros de raça, que custam tão caro e são disputados por pessoas que acreditam que assim estão demonstrando poder social e econômico.
Por toda essa liberdade vadia, eu preferiria o cãozinho caramelo na nota de maior valor, já que foi decidido que ela existiria. Podem me acusar de estar no campo da autoajuda, mas observando o que os cães vira-latas têm para me ensinar, dou-me conta de duas coisas: a) é um erro achar que é preciso provar algo a alguém; b) as criaturas do mundo são menos interessantes pelo aspecto antropológico de que pela complexidade que persiste em cada uma delas.