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Cinema

"Adoráveis Mulheres" critica o patriarcado com força e ternura

Filme mostra como quatro irmãs lidam com a opressão imposta pelo domínio masculino no presente e no futuro

Publicado em 19 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

19 jan 2020 às 04:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas
Cena de "Adoráveis Mulheres" Crédito: Filme Adoráveis Mulheres/ Divulgação

Cento e cinquenta anos e um mundo de transformações separam o livro “As Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott, do filme “Adoráveis Mulheres”, de Greta Gerwig.

Mas Alcott plantou uma sementinha de subversão que Gerwig soube revigorar com um misto de força e fofura no filme atualmente em cartaz nos cinemas capixabas.

Em 1868, quando o romance sobre as irmãs March chegou ao público, ideias como equidade, sororidade e empoderamento nem sonhavam aparecer. O feminismo tampouco existia formalmente - as expressões feminismo e feminista surgiram em 1872 e passaram a figurar no dicionário em 1895.

Também é provável que quase ninguém imaginasse que um dia haveria tanto a dizer (e a fazer) a respeito de temas como a igualdade, o poder das mulheres, solidariedade entre nós e o assédio.

A independência da protagonista Jo March — dona de um temperamento forte, ela sonhava ser escritora e recusava o casamento — era incomum, quase inaceitável, nos anos 1800. No filme, como no livro, ela, a mãe e as três irmãs enfrentam com ingenuidade, otimismo e afeto a penúria doméstica e a ausência do pai, combatente na Guerra Civil.

A história foi escrita à imagem e semelhança de sua autora, segunda das quatro filhas de uma família de poucas posses, mas muitos atributos intelectuais. Seu pai era um educador, filósofo, abolicionista e defensor dos direitos das mulheres que manteve estreita amizade com pensadores como Henry Thoreau, autor do manifesto "A Desobediência Civil", uma defesa da rebeldia individual como oposição legítima ao Estado.

Louisa tornou-se ela também abolicionista e inconformista e, ciente do jeito aéreo do pai, tratou de assumir algumas responsabilidades materiais da família, dando aulas e vendendo histórias açucaradas para os jornais da região.

A versão construída por Greta Gerwig mantém a insubmissão e o inconformismo de Jo March. Seu contraponto é a irmã do meio, uma jovem resignada diante da força do patriarcado.

Para Amy March, só havia um meio de sobrevivência para uma mulher sem condições de obter os próprios recursos: fisgar um marido rico. Ao contrário de Jo, Amy via o casamento como um negócio, determinado pelos interesses do homem e, principalmente, por suas posses.

No final das contas, "Adoráveis Mulheres" é um filme sobre a forma como cada uma das irmãs March lida com a opressão imposta pelo domínio masculino nas escolhas e nas possibilidades, no presente e no futuro.

Ana Laura Nahas

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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