Quem acompanha o universo da literatura no país viu que o Prêmio Jabuti deste ano resolveu dividir o romance em duas categorias: “romance literário” e “romance de entretenimento”. Diante do espanto das gentes, o curador do prêmio correu para explicar à plateia abismada que o romance de entretenimento “não foca na arte no uso da língua, mas traz uma narrativa especial, criativa, que ‘prende’ o leitor mais por seu enredo”.
A explicação me parece capenga. Em primeiro lugar, o enredo não tem nada a ver com o peixe, como diria um letrista de escola de samba. A leitura de qualquer produção literária é uma atividade mutante que depende das circunstâncias e até mesmo do momento existencial das pessoas. Como afirmar, por exemplo, que o enredo de “Um estudo em vermelho”, de Arthur Conan Doyle, entretém mais que o enredo de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis?
Em segundo lugar, o modus operandi artístico e linguístico de quem escreve é uma escolha pessoal, não leva em conta essa esquizofrênica separação. Uma coisa é defender a criatividade, outra é relativizá-la e pôr em xeque o uso artístico da língua em que uma narrativa se materializa.
Foi Brecht quem disse: “A arte quando boa é sempre entretenimento”. Talvez o único problema aqui seja ponderar o que é uma “arte boa”. Mas aí já entramos no terreno da estética e da politização, o que é compreensível em se tratando de Brecht. O que estou a considerar é o que seja o entretenimento. No século XVIII, com a diferença entre trabalho e lazer, virou sinônimo de distrair, divertir, oferecer atividades para que as pessoas aproveitem o tempo livre. Isso, porém, não tem mais razão de existir.
O mundo contemporâneo é um tecido indissociável de fatos, ficções, exposições e notícias. Tudo junto e misturado. Não há mais tempo superficial em nada. Dessa forma, o entretenimento “se eleva a um novo paradigma, a uma nova fórmula de mundo e de ser”, como explica o filósofo Byung-Chul Han. Assim, a divisão adotada pelo Jabuti, ainda que cheia de boa vontade de ser inclusiva, cai no vazio. E bem diz o ditado que “de boa vontade, o inferno está cheio”.
No que toca à arte da literatura, é certo que muitos escritores sentem arrepios de indignação só de imaginar que seus escritos possam ser tachados de entretenimento. Acham depreciativo. Preferem dizer que escrevem para uma elite de intelectuais. Esse é o xis da questão. A já cansada dicotomia entre popular e erudito. Mas os leitores são soberanos na escolha do que querem ler. E o ato de ler é uma forma deliciosa de entretenimento.