A sombria beleza da peça Hamlet, de Shakespeare, é eterna. Pensem na fala do guarda Marcelo (Ato 1-Cena 4): “Há algo de podre no Reino da Dinamarca”. Nada mais contemporâneo. Tanto como referência a fatos políticos e sociais escusos que, através dos séculos, muitos países escondem por trás de outros fatos aparentemente legais quanto aplicável ipsis litteris à própria Dinamarca que anuncia, nesta semana, o extermínio de 17 milhões de visons.
A Dinamarca é um dos países mais civilizados do mundo. Tem uma capital, Copenhague, eleita como uma das melhores cidades pela ótima qualidade de vida. Tem um governo repartido entre duas mulheres: uma rainha e uma primeira-ministra. Tem altíssimo índice de desenvolvimento humano. Para os ecologistas, é um lugar de águas límpidas. Para os turistas, é um pequeno Reino Encantado.
Para quem curte literatura e gosta de histórias, é a terra natal de Hans Christian Andersen, o pai da Pequena Sereia e autor de tantos contos infantis; e de Henrik Pontoppidan, Prêmio Nobel de Literatura/1917, o pai de um rapaz dinamarquês muito alto, muito magro, de olhos muito azuis, de nome Stephen Pontoppidan, que veio ao Brasil, aportou no Espírito Santo, se apaixonou e casou com Ana, uma moça muito simples de Conceição da Barra, a quem ele carinhosamente chamava Miana.
Mas nenhuma civilização, admiração, afeto ou memória impedem a estultice, a ganância e a vaidade de muitos dos seres que habitam o planeta. A Dinamarca tem também fazendas de criação de visons, postos em cativeiro e destinados ao abate para alimentar o mercado industrial de peles. Um casaco de vison é sinônimo de luxo e riqueza com que muitos sonham, sem nem mesmo pensar no sacrifício dos animaizinhos.
Agora, porém, há suspeitas de que os visons são hospedeiros de um vírus mutante da Covid. E até já existem notícias de contaminação das pessoas. Ou seja, esses peludinhos dóceis e macios se tornaram um perigo. Está decretado o seu extermínio. E a pandemia justifica essa sorte cruel.
Não sei em vocês, mas em mim a matança dos visons da Dinamarca causa uma dor difícil de ser entendida. Talvez seja porque toda criatura humana se reconhece impotente diante desses acontecimentos terríveis. Ou talvez porque me lembre (com alguma inquietação) o filme “A balada de Narayama” (1985), do japonês Shôhei Imamura, em que, pelo desespero de sobrevivência durante uma escassez extrema de alimentos, parentes mais novos carregam seus familiares com mais de 70 anos de idade para o topo da montanha Narayama, onde são deixados para morrer.