Sabe aquela propaganda em que uma jovem com cara de desespero indaga o que aconteceu com seu carro e o mecânico responde que o problema está na rebimboca da parafuseta? É claro que essa peça misteriosa não existe. Foi inventada para dar uma ideia do que seja uma embromação destinada a seres que não entendem do assunto.
Não é justo, porém, que apenas os mecânicos ganhem fama de enroladores. Entendidos de muitas profissões fazem uso de um jargão específico. Haja vista o economês, só para citar um desses falares a serviço do aturdimento de interlocutores. E tem também o pessoal acadêmico que faz questão de escrever difícil a fim de embasbacar a galera.
A coisa chegou a um ponto que um blog da Unicamp lançou o concurso “Explique sua tese para a vovó”, no intuito de simplificar os trabalhos científicos escritos por pesquisadores. E os alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado do Instituto de Química de São Carlos, da USP, criaram o projeto “Na banca com a vovó”, para divulgar suas pesquisas de um jeito mais “pega leve”, acreditando que até Einstein dizia: "Você realmente não entende algo a menos que possa explicar isso para sua avó." A ideia virou meme nas redes sociais: "Sua avó entende sua tese? Seu TCC chega até sua mãe?”.
Fato é que existe uma coincidência entre os memes da internet, as supostas palavras de Einstein e a propaganda da jovem nervosa em oficina mecânica: tem sempre uma mulher que não entende bem alguma coisa envolvida no caso. Moça, mãe, avó. Nunca rapaz, pai, avô. É a tática de desqualificação que o senso comum coletivo, movido pelo imaginário de uma cultura conservadora, faz questão de usar.
Tudo se passa de modo sub-reptício, como se as mulheres fossem criaturas graciosamente “tapadas”, impossibilitadas de compreender as palavras usadas no discurso técnico ou científico sem que alguém as explique. Sobretudo as avós, sempre tidas e havidas como senhoras antiquadas, portadoras de uma singela e rasa compreensão dos avanços das artes e das ciências, a ponto de os papéis acadêmicos necessitarem de adequações para que elas os entendam.
É bom não acreditar nessas tretas. Em primeiro lugar, já não existem (ou são cada vez mais raras) vovozinhas de coque e vestido comprido, sempre prontas a contar histórias aos netos, como faz Dona Benta, avó de Narizinho e Pedrinho, nos livros de Monteiro Lobato; em segundo, o IBGE certifica e dá fé que as mulheres detêm o maior número de títulos do ensino superior no Brasil. E não são poucas as avós que engrossam esses atuais dados estatísticos. Para nossa alegria.