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É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

As coisas que se encontram em uma antiga coletânea de poetas do ES

Por certo que em nossa ignorância luminosa das tramas e mesquinharias que movem os “podres poderes”, acreditávamos que a esquiva fama literária algum dia chegaria até nós

Publicado em 13/10/2020 às 05h00
Atualizado em 13/10/2020 às 05h00
Nova taxação, que incidiria sobre indústria do livro e de e-books, terá impactos danosos para a cultura
Autora relembra textos  da coletânea "Poetas do Espírito Santo". Crédito: Freepik.com

Nesta semana, retirava eu a poeira de alguns livros que já criavam raízes no esconderijo de uma prateleira, quando dei de cara com um exemplar meio amarelado de Poetas do Espírito Santo, coletânea assinada por Elmo Elton, datada de 1982. Li três poeminhas de minha autoria, que me pareceram tão singelos e distantes quanto os belos dias em que o pássaro da juventude esvoaçava às tontas sobre minha cabeça. Um tanto vexada, dei graças às musas Erato e Calíope por terem me abandonado depois dessa fase!

O bom é que eu não estava sozinha. Lá estavam o contista Fernando Tatagiba a trovar sobre as tristezas de um Natal sem a botina, o chapéu, a bengala do cômico Carlitos; o intelectual José Augusto de Carvalho a poemar sobre sua condição de ser originário de outras dimensões, de outros mundos; o romancista Reinaldo Santos Neves a versejar sobre a efígie alvíssara e os olhos azuis de uma tal Débora. Ou seja, naquele mar de poemas, que ia do padre Anchieta ao arcanjo Marvilla, boiava gente que, houve um tempo, também se arriscava nos versos.

Mas o melhor foi encontrar a página de Olival Mattos Pessanha, o poeta mais injustamente esquecido dos tristes trópicos desta Ilha. Lembro-me dele, nas décadas de 60 /70, a andar pelas ruas, agitado como uma ave pernalta, cogitando recitais, saraus e jograis, exibindo um papel com a impressão digital de seu polegar como sendo “a assinatura de Deus” e se proclamando contraventor de uma certa literatura oficial de compadrio, a qual Tatagiba, com refinada ironia, nomeava de “literatura do Convento da Penha”.

Pode-se dizer que Olival era o líder de uma trupe inquieta que se reunia no pátio da Fafi, no Teatro Carlos Gomes ou onde mais se pudesse, numa época em que qualquer peça escrita era tida como um perigo pelos censores e monitorada com um zelo digno de inquisidores do século XVII. Ainda não havia as “oficinas literárias”, frequentadas por quem tinha a esperança de que algumas regrinhas teóricas criassem escritores. Havia, porém, leitura de textos, debates contra a censura e muita falação.

Poetas de verdade ou não, a gente era “cria de frases”, como diz Manoel de Barros das criaturas que se embrenham no cipoal das palavras. Por certo que em nossa ignorância luminosa das tramas e mesquinharias que movem os “podres poderes”, acreditávamos que a esquiva fama literária algum dia chegaria até nós. Se chegou, se chegará, se nunca vai chegar não é coisa que uma antiga coletânea de poemas possa profetizar. É coisa de nonada, é coisa de mistério, é coisa de brincadeira do tempo.

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