Uma gentil entrevistadora quer saber se eu escrevo pensando em um tipo determinado de público. Pergunta difícil. É claro que se alguém escreve está dirigindo seu escrito a outro alguém. Porém esse alguém, a quem se dirige a escritura, é hipotético. Há ainda uma questão mais complexa: a leitura acontece à medida que se está escrevendo. Ou seja, quem escreve baixa um duplo de si, para receber a entidade leitora. Só depois é que o texto se espalha e se multiplica, reverberando nas leituras de outras criaturas.
É sempre bom imaginar que o que a gente escreve ganha vida, abre asas e voa para além do horizonte, para aquele lugar luminoso onde “a bruma a bailar se consuma entre as ondas do mar e o céu” (apenas para dar aqui o toque poético de um fado). Talvez seja por isso que, nestes dias de reclusão pandêmica, ocorre uma explosão da produção literária. Tem muita gente publicando, graças às facilidades gráficas e industriais de agora.
Mas ocorre uma acumulação, sobretudo de poemas, que provoca a sutil ironia de alguns especialistas tarimbados no gênero. “O que existe é uma poesia extrínseca, na qual todos são, ao cabo, ‘importantes poetas’, sem, no entanto, tomarem para si a responsabilidade de subir minimamente o patamar” – critica o poeta Regis Bonvicino.
É inegável que, além de diminuir o valor literário, a inflação de publicações tem outro efeito perverso: diminui o alcance de leitura. Não dá para ler tudo que se está publicando. E, pior, a massa de leitores do país já é muito pequena.
Pensar nisso é um bom jeito de excluir a vaidade da eternidade. Pois tem gente que acredita que basta publicar para ser sempre lida e louvada. Uma crença enganosa, movida por sonhos dourados de glórias e reconhecimento que podem se transformar em ouro de tolo. Na tirania do capitalismo, o sucesso de um livro muitas vezes se deve aos interesses do mercado livreiro e às circunstâncias de rentabilidade.
O cenário atual, em que a humanidade se vê preocupada com a sobrevivência da espécie, permite outra pergunta que desafia até mesmo quem escreve por escolha e paixão: para que serve a literatura? “A literatura não nos consola nem serve de lição para nada; porém, por meio das histórias, nos deparamos com dramas e tragédias que também são os nossos e, assim, nesse exercício de empatia, nos tornamos mais humanos” – diz o escritor Luiz Ruffato. Eu, de mim, confesso que não tenho respostas plausíveis. Tudo que posso saber é que a leitura e a literatura são o que são, no instante delas mesmas. E valem por si.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta