Dentro da imensidão de dor e sofrimento em que a pandemia mergulha o país, as muitas notícias de mulheres que morrem depois de uma lipoaspiração são um nicho de espanto. A lipoaspiração é um procedimento estético que está a serviço da atual cultura do corpo. Como tantos outros.
A cultura corporal sempre acompanhou a humanidade. Não há nada demais em que se queira ter um corpo bem cuidado e saudável. Porém o excesso e a obsessão na busca da juventude eterna e da beleza ideal podem ter consequências daninhas. Quem nunca ouviu falar de Narciso, o ser mitológico que despreza o amor de uma ninfa porque se apaixona pela própria imagem entrevista no espelho de um lago e, quando tenta tocá-la, cai e morre afogado?
A síndrome de Narciso perpassa pelo imaginário social dos séculos XX e XXI. Em seu rastro vêm duas ideias mistificadoras: a supervalorização da juventude como sendo a fonte de todo poder e a ilusão de que é preciso ter um corpo bonito para ter êxito na profissão e na vida.
Na verdade, a juventude eterna e a beleza ideal não existem. São miragens impostas para vender soluções mercadológicas, em uma sociedade como a de hoje, que quer convencer as pessoas de que o sucesso e a felicidade dependem do corpo jovem e perfeito, forjado pelos padrões de venda de soluções mágicas modeladoras. Aí incluídas operações plásticas como a lipoescultura e lipoaspiração, que compõem um cardápio cada vez mais banalizado, oferecido em clínicas nem sempre autorizadas a esse tipo de atendimento.
Esta insana busca da imitação de modelos irreais e inatingíveis, conseguida pela manipulação corporal cirúrgica e estética, nunca traz a satisfação esperada. Sempre haverá um vazio a ser preenchido. E, por vezes, o resultado é a morte.
Ponha-se a culpa de tanta irrealidade e insensatez também na conta evolutiva da propaganda, da televisão, do cinema e, mais recentemente, da internet, das redes sociais, do instagram, do photoshop e todas as tecnologias que impõem a cultura desenfreada da imagem. Em especial da imagem de mulheres representadas por um frenesi de curvas acentuadas, lábios polpudos, nádegas fartas, seios empinados, como se fossem objetos expostos à degustação, à inveja e ao desejo.
A julgar pelas fotos disponíveis nas mídias, as muitas mulheres mortas depois de uma lipoaspiração eram criaturas com um encanto particular, cada uma delas. Dói ver que não conseguiram entender que o corpo de cada pessoa é um complexo individual e único que vai muito além de qualquer aparência e, assim, se deixaram apanhar pela rede utópica da perfeição.