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É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

Em torno do modelo atualizado de regionalismo na literatura

Histórias, costumes e personagens rústicos reaparecem em contos, novelas, romances e poemas, servindo de gancho para desigualdades, pobreza, indiferença dos poderosos e miséria do povo em regiões rurais, interioranas ou de periferia

Publicado em 08/12/2020 às 05h00
O escritor baiano Jorge Amado, em 1972
O escritor baiano Jorge Amado, em 1972. Crédito: Arquivo Nacional

Outro dia, eu lia um artigo que elogiava um romance que anda muito na moda. E o elogio consistia em dizer que o autor misturava Jorge Amado, Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz, três mestres do chamado “romance nordestino”, marca registrada do regionalismo na literatura brasileira, ali pelos anos 30 e 40.

Sem entrar no mérito do romance elogiado (que não li e sim pretendo ler), venho pensando que rola um surto de retorno a esse tipo de regionalismo. Histórias, costumes e personagens rústicos reaparecem em contos, novelas, romances e poemas, servindo de gancho para desigualdades, pobreza, indiferença dos poderosos e miséria do povo em regiões rurais, interioranas ou de periferia.

É claro que o modelo foi atualizado e vem confeitado por resquícios do realismo socialista das lutas do proletariado, salpicado de migalhas do realismo mágico sul-americano. Não faltando vestígios da Geração de 45 nos cuidados linguísticos. É uma receita que parece ter sucesso no ambiente local e internacional. Talvez em parte devido à emergência de vieses ideológicos a que os temas sociais se adaptam hoje; em parte, porque existe uma exacerbada curiosidade do mundo sobre o que vai pelo Brasil, país desde sempre visto no exterior sob o prisma do exotismo, de um território colonizado ou a colonizar.

Não pensem vocês que estou a repudiar ou a recomendar o modelito supracitado. Não sou especialista em crítica ou em formação literária. Só estou constatando o sucesso dessa narrativa que corre na contramão da fase do intimismo e do urbanismo. Se bem que o sucesso de um livro independe da fase, acompanha o ar do tempo.

E parece que uma boa parte da diminuta quantidade de leitores que habita o país, atualmente, se inclina para a produção que está na crista da onda referencial de assuntos ou demonstra interesse por nomes que boiam nas redes da mídia e rapidamente se afogam no mar dos modismos. Salvo exceções cada vez mais difíceis de serem encontradas, autores antes estudados com fervor nas escolas ou citados nas rodas de discussão de amantes da literatura estão sendo substituídos e esquecidos.

Mas assim é a impermanência da vida. Por que com a literatura não seria igual? Mesmo porque vivemos um capitalismo perverso em que os modismos e os sucessos em literatura quase sempre estão postos sob os interesses de editoras gigantes do mercado empresarial, sempre em busca de lucros, sempre prontas a investimentos de persuasão e divulgação midiática. Coisas que as pequenas editoras, ainda que com a bravura de sobreviventes, não conseguem enfrentar.

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