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Pandemia

A necessidade de mudar o presente para sobreviver ao futuro

Nada será como antes. Todas as narrativas, todos os hábitos, todos os costumes terão de ser revistos

Publicado em 02 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

02 mar 2021 às 02:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Pessoas usando máscara durante a pademia
Uma vez vencida a pandemia, que será de nós? Como vamos viver no após? Crédito: prostooleh/Freepik
Vocês conhecem a história da esfinge de Tebas que dizia “decifra-me ou devoro-te”? A cada viajante que se aproximava da cidade, a esfinge propunha um enigma a ser decifrado: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?”. Se o viajante não acertasse a resposta, era devorado por ela. E olha que não foi pouca gente que a esfinge engoliu. Pelo menos até a chegada de Édipo, que matou a charada e descobriu que a resposta era o próprio ser humano na infância, na fase adulta e na velhice.
Quando penso nesta época de perplexidades em que vivemos, eu me lembro da esfinge de Tebas. Estamos diante de uma pandemia insensível que é como uma esfinge disposta a engolir a vida sobre o planeta. Se não encontrarmos um Édipo que resolva de uma vez por todas a situação, a humanidade inteira estará em perigo. O presente é incerto, dança na corda bamba do enigma. Que dirá o futuro.
Uma pergunta aflige a humanidade (pelo menos parte dela): uma vez vencida a pandemia (cruzem os dedos para dar boa sorte), que será de nós? Como vamos viver no após? Até hoje nenhum ser humano conseguiu prever com exatidão o que poderá acontecer naquilo que alguns chamam de “o novo normal”. A única coisa certa é que nada será como antes. Todas as narrativas, todos os hábitos, todos os costumes terão de ser revistos.
A Terra não aguenta mais a destruição dos recursos de sua natureza, o uso desenfreado da tecnologia, a inundação de informações postas a serviço do egoísmo, da mentira, da ganância, da estultice de tantos de seus habitantes. A única resposta correta para a sobrevivência das sociedades, das culturas e das criaturas é a palavra “mudança”.
Mudança é o que já vêm tentando alguns projetos pioneiros, como “Cidades em transição”, criado por Rob Hopkins, um professor preocupado com as questões ambientais, o esgotamento dos combustíveis fósseis, o impacto das atividades humana nas alterações climáticas. 
Nesse sentido, recomendo que vejam o documentário “O que nos move?" ("Qu’est-ce qu’on attend?"/2016), de Marie-Monique Robin. O filme registra como uma pequena cidade francesa, Ungersheim, prepara a transição para o que há de vir. Cada uma das ações, cada um dos personagens, cada um dos elementos ali postos traz a advertência de que seja qual for a idade que se tenha, não há limites para que comece a botar em prática a urgente certeza de que o planeta tem de se transformar. Pois se hoje a Covid é a esfinge de um mundo insano e doente, a mudança é o sonho que precisa virar realidade para dar sentido ao tempo que virá.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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