Vocês conhecem a história da esfinge de Tebas que dizia “decifra-me ou devoro-te”? A cada viajante que se aproximava da cidade, a esfinge propunha um enigma a ser decifrado: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?”. Se o viajante não acertasse a resposta, era devorado por ela. E olha que não foi pouca gente que a esfinge engoliu. Pelo menos até a chegada de Édipo, que matou a charada e descobriu que a resposta era o próprio ser humano na infância, na fase adulta e na velhice.
Quando penso nesta época de perplexidades em que vivemos, eu me lembro da esfinge de Tebas. Estamos diante de uma pandemia insensível que é como uma esfinge disposta a engolir a vida sobre o planeta. Se não encontrarmos um Édipo que resolva de uma vez por todas a situação, a humanidade inteira estará em perigo. O presente é incerto, dança na corda bamba do enigma. Que dirá o futuro.
Uma pergunta aflige a humanidade (pelo menos parte dela): uma vez vencida a pandemia (cruzem os dedos para dar boa sorte), que será de nós? Como vamos viver no após? Até hoje nenhum ser humano conseguiu prever com exatidão o que poderá acontecer naquilo que alguns chamam de “o novo normal”. A única coisa certa é que nada será como antes. Todas as narrativas, todos os hábitos, todos os costumes terão de ser revistos.
A Terra não aguenta mais a destruição dos recursos de sua natureza, o uso desenfreado da tecnologia, a inundação de informações postas a serviço do egoísmo, da mentira, da ganância, da estultice de tantos de seus habitantes. A única resposta correta para a sobrevivência das sociedades, das culturas e das criaturas é a palavra “mudança”.
Mudança é o que já vêm tentando alguns projetos pioneiros, como “Cidades em transição”, criado por Rob Hopkins, um professor preocupado com as questões ambientais, o esgotamento dos combustíveis fósseis, o impacto das atividades humana nas alterações climáticas.
Nesse sentido, recomendo que vejam o documentário “O que nos move?" ("Qu’est-ce qu’on attend?"/2016), de Marie-Monique Robin. O filme registra como uma pequena cidade francesa, Ungersheim, prepara a transição para o que há de vir. Cada uma das ações, cada um dos personagens, cada um dos elementos ali postos traz a advertência de que seja qual for a idade que se tenha, não há limites para que comece a botar em prática a urgente certeza de que o planeta tem de se transformar. Pois se hoje a Covid é a esfinge de um mundo insano e doente, a mudança é o sonho que precisa virar realidade para dar sentido ao tempo que virá.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta