Tenho ouvido e lido muito a respeito das mudanças que a pandemia global desencadeada pelo coronavírus impôs e, ainda irá impor, a nossas sociedades. Mais do que o ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001, a pandemia tem sido considerada o verdadeiro ponto de inflexão da história da humanidade, o verdadeiro início do terceiro milênio. Mesmo que o ataque ao World Trade Center em Nova York tenha ocorrido em 2001, no início, portanto, do terceiro milênio, estudiosos têm confirmado que a mudança de paradigma, o estopim da nova era, estaria acontecendo agora, enquanto você lê esta coluna.
O ataque terrorista às Torres Gêmeas cronologicamente inauguraram o século XXI, mas apesar da comoção causada inicialmente, o impacto do ataque na vida de cada um de nós foi e é muito diferente do impacto da Covid-19 no nosso dia a dia. A filósofa Donatella Di Cesare, em seu livro "Vírus Soberano?", escreve que a queda dos dois edifícios do World Trade Center atacados por aviões de passageiros sequestrados e pilotados por terroristas da Al-Qaeda foram “filtrados pela tela dos televisores”, chegando até nós de forma muito distanciada.
Já o ataque lançado pelo coronavírus, pelo contrário, no dizer de Donatella Di Cesare, é “invisível, impalpável, etéreo, quase abstrato”. E, assim, sem que sequer percebamos sua presença, o vírus ataca os nossos corpos, deixamos de ser meros observadores da história e passamos a ser parte da história, vítimas de um vírus extremamente poderoso.
Enquanto o ataque terrorista no 11 de setembro de 2001 não impactou o funcionamento do sistema regulador da ordem mundial, tendo-se mantido as mesmas engrenagens do pós-II Guerra funcionando, a pandemia fez parar o funcionamento do planeta, gerando uma crise de escala global, que afetou a política, a economia, o sistema educacional, os eventos esportivos, e, ainda, fez a ciência parar em busca de uma vacina para interromper o curso destrutivo do vírus.
Se antes da pandemia falávamos em biopolítica, com inspiração em Foucault, usando uma metáfora para dizer como os nossos corpos eram atingidos por decisões políticas e econômicas, hoje vemos claramente, como esclarece Di Cesare em seu livro sobre a pandemia, os nossos corpos físicos sendo atingidos por um vírus que causou uma crise extrassistêmica: ou seja, um elemento externo, não controlado (nem criado, menos ainda antevisto) pelo sistema político-capitalista ocidental, que fez o mundo ficar em suspenso.
Agora, o próprio sistema capitalista que domina as democracias ocidentais e influencia todo o resto do mundo por suas decisões, não sabe direito como agir para retomar o seu funcionamento, e mais ainda, não tendo ainda descoberto uma fórmula direta de se beneficiar da crise.
Talvez seja este momento, o que vivemos atualmente, um tempo de mudanças no nosso estilo de vida, em especial na forma como nos relacionamos com outros seres humanos e com o planeta. Nos primeiros dias em que se tomou conhecimento da gravidade do vírus, quando no Brasil os Estados e municípios decidiram suspender as atividades públicas e determinar o afastamento social, a maioria das pessoas sentiu um alívio, como se pudessem descansar e desacelerar de rotinas sufocantes que lhes eram impostas.
Hoje sabemos que com a crise de saúde pública provocada pela Covid-19, o meio ambiente pode se recuperar, algumas pessoas passaram a dedicar mais tempo a suas famílias, outras passaram a ajudar mais em causas humanitárias, seja através de ONGs ou de entidades religiosas. Mas o mundo pandêmico ainda nos oferece outras oportunidade de crescimento e melhora, talvez a busca hercúlea de cientistas do mundo inteiro pela vacina seja uma dessas oportunidades.
Isso, porém, não tem impedido a ganância e o egoísmo de grassarem pelo mundo inteiro minando, mesmo, os esforços de cientistas e médicos na luta contra o espalhamento da nova doença. Enquanto isso, o sistema capitalista começa a criar possibilidade de precificar a vida humana, inspirando alguns aqui no Brasil a defender a venda de vacinas por entidades privadas para aqueles que podem pagar.
Ao mesmo tempo, vemos o capitalismo acadêmico cultuado pela Capes por meio da indexação de revistas para a publicação de artigos lotando bibliotecas governamentais, pontuando e cultuando os mesmos grupos que vêm sendo privilegiados por anos, sem que se proponha a efetivação prática dos avanços da ciência para aqueles brasileiros e brasileiras que realmente precisam.