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Sociedade

Ética da alteridade respeita o outro em sua integralidade

Precisamos entender que as características do homem viril, do herói branco, sujeito principal da modernidade, não são mais o que determina a narrativa histórica do mundo

Públicado em 

06 jan 2021 às 06:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Público dá preferência a marcas que demonstram empatia e solidariedade em suas práticas
Assim, quando se dá conta da existência de outros, como o feminino, os negros escravizados, os povos indígenas, o homem branco tem que sair do conforto de sua interioridade Crédito: Freepik
A ética da alteridade foi proposta pelo filósofo judeu Emmanuel Levinas em suas obras filosóficas, em especial no livro Totalidade e Infinito, escrito já depois de sua experiência em um campo de concentração na Alemanha, como prisioneiro de guerra. A obra vasta deixada por Levinas compreende não só escritos filosóficos, mas também escritos religiosos derivados das suas leituras do Talmude.
Levinas pretendeu revisitar a filosofia ocidental centrada na subjetividade do ser, para pensar o Outro, aquele(a) que é externo ao sujeito. Para ele, os caminhos percorridos pela filosofia desde a Grécia antiga, centrando-se, no século XX, fortemente na ontologia do ser, acabou por esquecer-se de um valor maior que é a alteridade e sua ética.
A ética de Levinas é a que enxerga o exterior de si mesmo quando vê o Rosto do outro, quando percebe o diferente de si mesmo; essa ética efetiva-se, por exemplo, quando o ser vê o oposto de si mesmo, o homem que vê a mulher e a percebe como diferente de si mesmo. Nos estudos brilhantes da professora Magali Mendes de Menezes, fica claro que o Feminino é colocado na obra de Levinas como o oposto do que está posto na história da filosofia ocidental que tem como seu centro o homem branco.
A alteridade proposta por Levinas é o enxergar o Outro como diferente de si mesmo. A ética dessa forma de agir estaria justamente no fato de o ser ontológico da filosofia ocidental (homem branco) perceber-se em sua finitude, ou seja, perceber que existe algo para além de si mesmo. Levinas vai chamar este para além de si mesmo de exterioridade, que é metafísica num sentido diferente do que lhe é dado pela filosofia tradicional.
Assim, quando se dá conta da existência de outros, como o feminino, os negros escravizados, os povos indígenas, o homem branco tem que sair do conforto de sua interioridade amalgamada pela visão de mundo integradora que abarca o que ele entende como totalidade do existente, para dar lugar a uma visão mais cosmopolita e diferenciada da sociedade que é muito mais ampla do que aquela que ele tinha até então, onde todos eram iguais e viviam dentro dos mesmos parâmetros pré-estabelecidos para uma vida uníssona.
Para Levinas, a ruptura a ser operada pela ética da alteridade deve retirar a liberdade como valor principal da sociedade humana, passando a ser a justiça da alteridade o que vai pautar o agir do ser humano no futuro. A alteridade reconhece, enxerga e dialoga com o Outro sem pretender cooptá-lo para a sua interioridade, mas sim permitindo que a vida em sociedade se dê de muitas e variadas formas.
A alteridade reconhece a diferença como valor positivo e não como algo negativo. Até então, o feminino, por exemplo, era visto como negativo, representando a fragilidade, a sensibilidade, mas Levinas vai dizer que o sujeito que emerge da guerra é o sujeito que sofreu os horrores da barbárie, não o herói. Como esclarece Magali Mendes de Menezes, “o Eu viril perde seu poder de tudo poder, torna-se vulnerável.” (O pensamento de Emmanuel Lévinas: uma filosofia aberta ao feminino, Rev. Estud. Fem. vol.16 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2008).
Precisamos entender que as características do homem viril, do herói branco, sujeito principal da modernidade, não são mais o que determina a narrativa histórica do mundo. A sociedade contemporânea demonstra claramente que não irá tolerar uma narrativa única e integradora que apaga todas as diferenças em nome de uma singularidade ideal.
Os movimentos feministas, os debates antirracistas, a auto-determinação dos povos autóctones, tudo isso fruto da alteridade que permite ver o Outro em suas diferenças, comprovam que é necessário uma mudança na ética social, que passa a enxergar a diferença dando a ela lugar de proeminência e não de exclusão na história do mundo.
Muitos irão debater-se, pretender ainda enxergar o outro a partir do olhar reducionista de si mesmo, mas cabe a nós mulheres, negros, indígenas, todos os diferentes que se somados são a maioria da humanidade, mostrarmos que a ética da alteridade, que vê o outro e o respeita em toda sua integralidade, é a única forma possível de justiça na construção de um futuro melhor para as novas gerações.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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