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Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

Saídas coletivas para a violência por meio da pedagogia da alteridade

As reflexões nos ajudam a construir um caminho compreensivo sobre a violência, não somente enquanto fenômeno, mas enquanto processo. A violência não pode ser entendida somente como ato, considerando que possui causas e consequências

Publicado em 10/10/2020 às 05h00
Atualizado em 10/10/2020 às 05h00
Frajola e Piu-Piu
Até a caçada do Frajola pelo Piu-Piu pode ser analisada sob duas óticas. Crédito: Divulgação

Quando pequeno, certa feita, meu filho, há época com quatro anos, no café da manhã, pediu, insistentemente, uma fruta para alimentar o Frajola. Indaguei, em tom de brincadeira matinal, se ele estava com fome. Ele, de forma séria e incisiva, me disse que sim. Perguntei porque ele estava com fome. Ele me respondeu que era porque ninguém deixava ele comer o Piu-Piu.

Esse episódio me fez olhar com outra lente a história e de compreender que existe sempre dois lados que precisam ser ouvidos. O entendimento das motivações com que as pessoas adotam essa ou aquela atitude em determinadas circunstâncias é imprescindível.

Bertolt Brech, em uma frase que segue no sentido da nossa reflexão, diz que “do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem". Evidente que a reflexão não propõe a isenção de responsabilidade, mas indica a necessidade em mergulhar nas histórias que muitas das vezes trazem consequências para a vida de tantas pessoas, deixando um rastro de sofrimento, quando poderiam ser resolvidas ainda precocemente. Precisamos apreender a agir na dimensão prévia de um acontecimento com consequências drásticas, pela estrada da compreensão.

É preciso adquirirmos a capacidade nos colocar no lugar do outro na relação interpessoal, construindo a alteridade em uma perspectiva antropológica de encontro sem a ocorrência de julgamentos ou discriminação. É nesse ponto que o pensamento do filósofo contemporâneo Emmanuel Levinas estabelece as bases para uma pedagogia da alteridade, que implica um uma saída de si sem previsão de retorno à segurança ou à satisfação, mas possibilitar outras formas de encontrar saídas coletivas e próximas às vivências para questões que fazem parte do tecido social como a violência.

Todas essas reflexões nos ajudam a construir um caminho compreensivo sobre a violência, não somente enquanto fenômeno, mas enquanto processo. A violência não pode ser entendida somente como ato, considerando que possui causas e consequências.

Enquanto causa, em uma dimensão prévia, é composta de variáveis que pedem ser contidas ainda anterior ao seu enraizamento. Enquanto consequência, produz interferências na vida das pessoas, que vão além da vítima e acusado, mas de todo o entorno, em uma produção de subjetividades e condição de existência que colaboram para alterar o curso de vida.

Desta forma, nós, enquanto humanidade, poderemos compreender a fome do Frajola e a fúria do rio, e encontrar, de forma coletiva, alternativas para as situações que, na maioria das vezes, parecem ser violentas, mas que ao final das contas correspondem a respostas previsíveis a uma situação que não foi cuidada previamente.

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