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Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

Enfrentamento da fome também precisa atrair todos os holofotes

Assim como as guerras e epidemias entram para o orçamento público e se tornam prioridades, o fenômeno da fome precisa alcançar esse patamar urgentemente, na prática e não somente nos discursos

Publicado em 01/08/2020 às 05h00
Atualizado em 01/08/2020 às 05h00
A fome é um mal que mata milhões de pessoas no mundo
Pandemia deve levar milhares de pessoas ao redor do mundo de volta ao estado de extrema pobreza. Crédito: Sadik Gulec/Shutterstock

Passar fome certamente é a condição mais violadora que uma pessoa pode ser submetida, mas ainda hoje não causa a mobilização estrutural suficiente por parte do poder público e da sociedade para o seu enfrentamento e erradicação. O não consumo de calorias necessárias para uma pessoa levar uma vida saudável e ativa é o que conhecemos como o fenômeno da fome. No mundo, ainda hoje, milhões de pessoas não têm acesso contínuo à alimentação básica para a manutenção da vida, o que viola de pronto o direito à segurança alimentar.

De acordo com o Relatório “Estado de Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo em 2020”, divulgado em julho por diversas agências da ONU, no ano de 2019 cerca de 47,7 milhões de pessoas na América Latina e Caribe passaram fome. O relatório ainda indica que nos dias atuais, a fome afeta 7,4% da população da América Latina e Caribe, e os prognósticos para 2030 é o aumento para 9,5%.

Em maio de 2020, o diretor na ONU, a partir de estudos do Banco Mundial, afirmou que o Brasil está retornando para o mapa da fome. Estimou que 5,4 milhões de pessoas voltem ao estado de extrema pobreza em decorrência da pandemia.

Essa estatística, embora em um primeiro momento pareça somente números, na verdade é a realidade que temos visto ao vivo e a cores nas ruas de todo o Brasil. A quantidade de pessoas que hoje vive sem o consumo básico de alimentos para garantir a sobrevivência é estarrecedora, requerendo uma medida urgente com a implementação de políticas públicas contínuas de segurança alimentar, transferência de renda e emprego.

Josué de Castro, reconhecido médico, nutrólogo e cientista social brasileiro, em sua obra a Geopolítica da Fome, sustentou que “o desgaste humano produzido pela fome é bem maior do que o das guerras e das epidemias em conjunto”. Para ele, “as consequências sociais e biológicas são mais gravosas, uma vez que a fome destroça a vida dos sobreviventes pelo resto da vida, enquanto as perdas das vidas acarretadas pela peste ou guerras podem ser reparadas em uma década”, segundo seu estudo.

Assim como as guerras e epidemias entram para o orçamento público e se tornam prioridades atraindo todos os holofotes, o fenômeno da fome precisa alcançar esse patamar urgentemente, na prática e não somente nos discursos, para iniciarmos uma fase concreta de satisfação enquanto direito social elementar, pois como diria o sociólogo Herbert de Souza: “quem tem fome, tem pressa”.

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