Os extremismos que estamos vivendo na atualidade sinalizam a necessidade da adoção de novas práticas que contribuam para as convergências dos diferentes, e que tenham pilares, inegociáveis, para a preservação da vida humana.
Para construção de uma casa comum, onde todos e todas tenham direitos assegurados, algumas práticas deverão ser substituídas por outras como ponto de partida para algo que é possível. As práticas de disputas e acirramentos, que aprofundam as diferenças e afastam as pessoas, deverão ser substituídas por práticas cooperativas que aproximam as pessoas quando percebem semelhanças.
A diferença entre as pessoas é uma marca da humanidade, e deve ser elemento de enriquecimento na construção de uma sociedade plural e humana. A diferença deve ser, em sociedades democráticas, elemento de aproximação e não de distanciamentos. Contudo, nos últimos temos, as pessoas têm se fechado em grupos homogêneos, compreendendo que a pertença a grupos heterogêneos seria como abrir mão de pensamentos e posições. Conviver com as diferenças se transformou em indicativo de concordar com os outros, sem o posicionamento crítico e reflexivo.
Entrementes, mesmo com as contradições, é possível construir com base em aproximações e pertinências pontuais. Charles Taylor, importante pensador contemporâneo, em recente entrevista, asseverou que “podemos identificar valores comuns e compartilhados que podem ser uma base para uma colaboração produtiva e equitativa entre pessoas de diferentes raças, nacionalidades, crenças religiosas e filosóficas”. Nesse sentido, por mais que existam diferenças entre as pessoas, alguns pontos em comum sempre são possíveis de existir.
Para ser possível essa construção é imprescindível a existência de uma ética da escuta e ética do falar, embasadas em princípios e valores que devem ser incorporados por cada um e por todos. Essa ética tem como elementos fundante o respeito ao outro, mesmo que não pense da mesma forma. Diferentemente da tolerância, o respeito pressupõe em reconhecimento do outro enquanto sujeito de direitos, e que em hipótese alguma pode ter qualquer direito violado. Esse é o exercício do humano, enquanto ser falível, mas potente.
Existe o ponto que Taylor reforça é o fato de “que muitas vezes, é mais confortável ser irredutível e insistir que não há nada de errado na nossa visão atual”, o que aponta para posicionamentos de pessoas que se fecham em seus próprios fundamentos e não se colocam no caminho do diálogo para a construção de práticas cooperativas, pavimentando o caminho para violações de direitos humanos em todas as dimensões.
Práticas cooperativas se opõem a competição e vão além da colaboração. Consiste em se implicar na ação e ter responsabilidade com o resultado, tendo certo que precisa ser um jogo de ganha-ganha, mesmo que em determinados momentos seja preciso recuar em posições individuais para pensar no coletivo, e ter serenidade para não compreender esse movimento como perda.