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Xadrez da crise

Crises sanitária, política e econômica colocam o povo à beira do xeque-mate

Milhões de pessoas precisam que o jogo esteja equilibrado e azeitado entre as questões de saúde, política e econômica para verem seus direitos e garantias serem satisfeitos, ou seja, para que o social seja contemplado

Publicado em 11 de Julho de 2020 às 05:00

Públicado em 

11 jul 2020 às 05:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Coronavírus tem provocado impacto na economia
Coronavírus tem provocado impacto na economia, e exposto dilemas na saúde e na política Crédito: Freepik
Vivemos atualmente uma das piores crises de saúde mundial, especialmente no Brasil, que estamos fazendo a travessia nesse período difícil sem nomeação para as duas principais pastas que um governo possui, e tem relevado diferenças abissais entre as classes sociais.
A crise que atravessamos de ordem sanitária, social, econômica e política se apresenta como um desafio, nunca antes imaginado, colocando o país em uma situação delicada e aumentando as dúvidas sobre o futuro. Cotidianamente, joga-se um jogo complexo em que a vida de pessoas está exposta.
É como jogar xadrez com quatro tabuleiros, em que as peças tenham que se movimentar, não somente entre as casas de um mesmo tabuleiro, mas também entre os diversos tabuleiros, utilizando-se de todas as estratégias e raciocínios que um jogo de alta sofisticação e inteligência requer.
A grande questão é se os enxadristas saberão controlar as peças de cada tabuleiro, com seus diferentes formatos e características, objetivado o xeque-mate, que significa, no caso do Brasil, a garantia de direitos para todas as pessoas, e não somente de alguns.
Na questão sanitária, a existência de uma política pública que tenha sua base no Sistema Único de Saúde Total, em que o acesso aos serviços de baixa, média e alta complexidades seja realmente universal e tenha uma diretriz única, e que nesse momento se volte, prioritariamente, para o enfrentamento ao coronavírus.
Quanto à questão política, os acirramentos e disputas não colaboram para o encontro de uma saída que tenha o viés de construção de uma plataforma, não única, mas pelo menos colaborativa para tratar os demais problemas. No que tange a área econômica, a não priorização do acesso aos recursos financeiros mínimos para a satisfação das necessidades mais básicas da população pobre desse país e a oportunidade concreta para milhares de pequenos empreendedores vão na contramão de uma política econômica estruturante e emancipatória, que realmente contemple a todos.
A não resolução das três áreas acaba por reverberar na área social um quadro de extermínio de direitos que podemos classificar como necropolítica, uma política que mata das mais diversas formas. Milhões de pessoas precisam que o jogo esteja equilibrado e azeitado entre as questões de saúde, política e econômica para verem seus direitos e garantias serem satisfeitos, ou seja, para que o social seja contemplado. Negar essa questão, e não trabalhar para que isso seja uma realidade, é desenhar um futuro catastrófico para todo mundo, e não somente para os que menos têm.
No caso do xadrez brasileiro da crise, os enxadristas deverão ter muita habilidade e destreza para que as peças possam transitar entre os quatro tabuleiros, jamais esquecendo que as principais características do jogo são encontradas na ciência e na arte e, principalmente, a maior parte das peças são os peões.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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