O ensaísta e filósofo Frantz Fanon, nascido na Martinica, refletiu de forma complexa sobre os processos de descolonização, a partir da independência da Argélia. Pensador contemporâneo, chegou a sustentar que para haver uma verdadeira descolonização era preciso que “o mínimo exigido é que os últimos se tornem os primeiros”. Em sua obra, “Os condenados da terra”, o referido autor nos convidou a pensar processos de violência e dominação que aconteceram ao longo da história, garantindo grandes conquistas ao tempo que produziram graves violações.
Para Fanon, “a descolonização é realmente a criação de homens novos. Mas esta criação não recebe a sua legitimidade de nenhuma força sobrenatural: a “coisa” colonizada converte-se, no homem, no próprio processo pelo qual ele se liberta”.
Pensando quem são os “condenados da terra”, podemos compreender todos aqueles que são os vencidos da história e ainda hoje vivem de forma subumana, pois não têm acesso aos direitos básicos. São tratados como descartáveis, contudo, são necessários para a manutenção da base de uma pirâmide injusta e desigual.
Após 60 anos, o pensamento de Fanon é atual. Reflete a estrutura de colonizações que a cada dia se atualiza e continua produzindo desigualdade. A narrativa dos vencedores se impõe sobre a dos vencidos, reproduzindo sistemas de violações.
Ainda hoje temos duas cidades, que para Fanon eram a do colono e a do colonizado. A primeira é uma cidade farta e cheia de coisas boas; a segunda, uma cidade esfomeada onde nasce e morre-se de qualquer jeito. As duas cidades coexistem num único espaço, e a segunda se tornou invisível à primeira.
Pensar formas de aproximação entre os moradores dessas duas cidades é mexer em privilégios que existem há anos e ninguém que os têm se dispôs abrir mão deles. A saída é muito complexa, pois requer uma tomada de consciência de que somente com uma cooperação verdadeira e estrutural é que mudaremos a realidade que há tempos vem sendo ressaltada.
Se isso não for feito, e todos tomarem a consciência de que será necessário que alguns abram mão do algo para que todos tenham uma chance de conseguir pouco, a realidade do mundo será continuar a conviver com “condenados da terra”, ignorando que o outro continue tendo uma vida miserável. Lado outro, esses “condenados” farão da sua vida o processo de luta para se constituírem homens novos e viverem uma realidade digna.