Encontramos máscaras em várias culturas com diferentes funções e significados. Elas podem servir para representar ou esconder a face. As máscaras venezianas estão, intrinsecamente, vinculadas ao carnaval, sendo famosas ao reproduzir um outro tipo de rosto e disfarçar quem dela está por trás.
Vivemos um tempo de máscaras diferentes, que se transformaram em acessório necessário para permanecer vivo. Na atualidade, a máscara é medida obrigatória para enfrentar o coronavírus, na ausência de uma política pública de saúde segura. Desfigurando o rosto, segue impedindo o sorriso.
Em seu livro "Lugar de Fala", Djamila Ribeiro resgata a história da escrava Anastácia, que era obrigada a viver com uma máscara cobrindo a boca. No livro, a autora resgata a explicação de Kilomba no sentido de que a máscara era utilizada para “impedir que as pessoas negras escravizadas se alimentassem enquanto eram forçadamente a trabalhar nas plantações”. Ressalta a autora que “as máscaras também tinham a função de impor o silêncio e medo, na medida em que a boca era um lugar tanto para impor silêncio como para praticar tortura”.
A máscara impede o ser humano de se alimentar, de falar e de sorrir. Desfigura o rosto, que repleto de medo não se mostra e parece não ter reação. Vivemos um tempo sombrio em que sequer conseguimos mostrar ao mundo a nossa cara, parecendo que temos que nos esconder do vírus. Impede a resistência a algo que não sabemos como enfrentar.
Pensar uma sociedade com máscaras nos faz refletir enquanto signo de redução de potência para lutar. Parece que a máscara, ao mesmo tempo que nos protege e protege o outro, nos imobiliza para a luta contra algo que não conhecemos. Símbolo da desconfiança, do desconhecido e da incerteza.
Na busca para amenizar esse tempo de máscara, muitas pessoas buscaram formas de suavizar a sua apresentação e tentar incorporá-la ao cotidiano, internalizando como um direito-dever, mas também como cuidado. Contudo, mesmo com as tentativas de suavizar a utilização das máscaras fato é: não estávamos acostumados a cobrir o rosto para viver a vida.
Agora, somos obrigados a utilizar uma nesga de pano (ou outro material próprio), sobre a boca e o nariz, para viver e não proliferar gotículas de transmissão do vírus. E assim, a boca deixa de falar livre e o nariz deixa de respirar suave. O sorriso restou encoberto para se garantir o direito à vida. Em Veneza, alguns rostos tristes são escondidos por máscaras, por aqui, também.